quarta-feira, 15 de junho de 2016
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Cult of Luna & Julie Christmas - Mariner

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Gênero: Atmospheric Sludge Metal / Post-Metal
País: Suécia / Estados Unidos
Ano: 2016

Comentário: Eu sempre achei interessante álbuns colaborativos e parcerias entre artistas, sendo eles de gêneros musicais parecidos ou reunindo gêneros diferentes, afim combinar ideias parecidas ou criar algo híbrido. Muitas dessas parcerias que aconteceram ao longos dos anos resultaram em algo que me agradou além do esperado, valendo citar Neurosis e Jarboe, o Sunn O))) por duas vezes sendo uma delas com o Boris e a outra com o Ulver, Ufomammut e Lento, e mais recentemente entre o Cult of Luna e a Julie Christmas.

O Cult of Luna é uma das minhas bandas favoritas de Post-Metal, álbuns como Salvation, Somewhere Along the Highway e Vertikal, possuem uma qualidade impressionante e uma sonoridade única, colocando a banda num patamar acima que muitos outros nomes do estilo. Em Mariner, a banda se junta à Julie Christmas, que fez sua carreira nas bandas Battle of Mice e Made Out of Babies, e o resultado não poderia ser melhor.

A abertura do álbum acontece com a faixa A Greater Call, trazendo uma sonoridade bem nos moldes apresentados nos álbuns do Cult of Luna. O início lento e atmosférico cede espaço para um instrumental intenso e pesado, repleto de guitarras dissonantes e synths se destacando, que servem de plano de fundo para os vocais de Persson e Julie. Nesta faixa Julie aparece como um backing vocal para Persson, mas a combinação cria algo agradável e belo. Em Chevron, é onde a parceria começa a demonstrar claramente seu resultado, o instrumental repleto de riffs grandiosos, uma percussão sólida e uma atmosfera densa muito bem reforçada pelo teclados e synths, alavancam a performance de Julie Christmas ao longo da faixa, onde ela demonstra toda sua capacidade e variações de vocal. Sendo pouco acompanhada pelo vocal de Persson, Julie rouba a cena definitivamente, seja gritando ou nos encantando com seu doce vocal, valendo destacar os minutos finais que trazem um clima belo e sereno com a combinação do vocal de Julie e o instrumental bem executado do Cult of Luna. The Wreck of S.S. Needle é a faixa que mais me agradou em Mariner. Novamente a parceria se mostra eficiente, com o Cult of Luna apresentando um instrumental com diversas variações de ritmo e uma pegada que me lembra muito algo feito em Vertikal. Julie por sua vez, tem total controle e destaque na faixa, impondo seu vocal de maneira que combina perfeitamente com o instrumental, nos ganhando novamente e impressionando com o final explosivo da faixa. Approaching Transition é a única faixa que não envolve a Julie, consistindo numa faixa extensa e de ritmo cadenciado, ela dá uma quebra de ritmo no álbum, antes do que seu final agressivo coloque as coisas no lugar novamente. Cygnus fecha o álbum de maneira esplêndida. Nela a dualidade nos vocais de Persson e Julie retorna, e de uma maneira em que os dois se alternam na liderança. O instrumental se mantem pesado e bem atmosférico, principalmente nos momentos finais acompanhando a combinação caótica e bela entre os vocais de Julie e Persson.

Mariner não soara novidade quanto ao instrumental para aqueles que já conhecem o trabalho do Cult of Luna, pois a banda demonstra diversos aspectos de seus trabalhos anteriores. O diferencial e ponto alto do álbum, é justamente a presença da Julie Christmas. É impressionante como o vocal dela se encaixa perfeitamente com esse tipo de instrumental, em todas as variações que ocorrem ao decorrer das faixas. Fica aquela vontade de ver novamente essa parceria acontecendo e com ambos evoluindo o que foi feito em Mariner. Sem dúvidas um dos lançamentos mais agradáveis do ano.



Tracklist:

01 - A Greater Call
02 - Chevron
03 - The Wreck of S.S. Needle
04 - Approaching Transition
05 - Cygnus

Ouça em: Spotify

quarta-feira, 8 de junho de 2016
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Cough - Still They Pray

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Gênero: Sludge / Stoner / Doom Metal
País: Estados Unidos
Ano: 2016

Comentário: Quando uma banda que você gosta muito fica por um longo período sem lançar um álbum novo, é normal que a ansiedade seja imensa quando a banda em questão anuncia que está gravando material inédito. E quando finalmente o álbum é lançado (ou vaza na web), você de imediato sente uma necessidade imensa de escutá-lo como se não houvesse amanhã. Acredito que muitos passam e passarão por isso ao longo dos anos assim como eu, que recentemente pude acabar com uma espera de quase seis anos sem um álbum novo dos americanos do Cough.

Para aqueles não familiarizados com o nome ou mais precisamente com o som da banda, o Cough cria um som não recomendado para ouvidos mais sensíveis, a banda tem um peso característico que sabe combinar muito bem com climas mais sombrios, melancólicos ou "chapados". Desde o álbum de estreia intitulado Signum Luciferi, a banda já demonstrava uma qualidade satisfatória e um som que não deixa a desejar entre as bandas mais recentes do estilo. O Cough conseguiu subir um degrau acima com o lançamento do seu segundo álbum, o excelente Ritual Abuse (o qual eu já resenhei aqui no Ignes, lembram?), que é muito bem recebido por grande parte daqueles que gostam do estilo. E agora, a banda volta com tudo no seu terceiro álbum de estúdio intitulado Still They Pray.

O álbum possui todos aqueles elementos agradáveis que a banda demonstrou nos trabalhos anteriores, entregando oito faixas de qualidade. Logo de cara vem a empolgante "Haunter of the Dark", conduzida por riffs agradavelmente arrastados e com solos frenéticos, destaque para o refrão cativante que gruda no ouvido logo na primeira audição. "Possession" é uma faixa poderosa e marcante, muito bem estruturada trazendo aquela variação nos vocais que marcaram a sonoridade da banda nos álbuns anteriores. O Cough ainda traz uma faixa lembrando a pegada de "Crooked Spine" do Ritual Abuse, a "Let it Bleed" é uma balada bad tip bem construída, bem chapada e num clima de angústia que é muito presente no álbum. A faixa de encerramento leva essa ideia ainda mais além, ""Still They Pray" é uma faixa acústica sombria e introspectiva e o momento de calmaria após toda agressividade que a banda lançou ao longo do álbum, uma pegada e vibe que lembra a "Evergreen" do Windhand, por exemplo. A minha favorita é a "The Wounding Hours", que foi uma das faixas divulgadas antes do lançamento do álbum. Trazendo aquele instrumental arrastado e que ganha um toque bem sombrio com o uso do órgão ao fundo, os vocais ríspidos e angustiantes dão um clima soturno à faixa, e os riffs são devidamente marcantes, criando uma atmosfera densa e profunda.

Still They Pray é o lançamento do ano que mais me agradou até o momento, por mais que fosse um álbum que eu aguardasse ansiosamente, a expectativa que tinha em relação a ele foi superada, o Cough mostra um amadurecimento e evolução notáveis ao decorrer do álbum, solidificando ainda mais o seu nome como uma das melhores bandas do estilo dos últimos anos. O álbum foi produzido pelo Jus Oborn do Electric Wizard, vale muito conferir!




Tracklist:

01. Haunter Of The Dark
02. Possession
03. Dead Among The Roses
04. Masters Of Torture
05. Let It Bleed
06. Shadow Of The Torturer
07. The Wounding Hours
08. Still They Pray

Ouça em: Bandcamp


quarta-feira, 1 de junho de 2016
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Schammasch - Triangle

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Gênero: Avant-Garde / Black Metal
País: Suíça
Ano: 2016

Comentário: Muitas vezes as ideias mais ambiciosas de algumas bandas não resultam exatamente naquilo que elas gostariam, o resultado final pode ser até uma decepção. No caso do Schammasch não é isso o que acontece. De um nome desconhecido por mim, a banda agora é frequente na minha playlist por conta do ótimo álbum Triangles.

Ambicioso é a palavra mais adequada para descrever o álbum. Após ler críticas favoráveis à respeito do álbum, resolvi conferir e tirar minhas próprias conclusões. O álbum possui todo um lado conceitual e é divido em 3 partes, 3 cds distintos, totalizando um total de uma hora e quarenta minutos de duração.

Pela sua longa duração, admito que não algo fácil de escutar e captar exatamente tudo proposto com facilidade, ainda mais se tratando de 3 cds com características diferentes. O primeiro cd é intitulado "The Process of Dying" e traz uma sonoridade fácil de ser assimilada com certos trabalhos do Blut Aus Nord e Deathspell Omega. É formado por seis faixas sendo duas instrumentais, as demais seguem uma sonoridade repleta de riffs dissonantes e uma levada atmosférica bem agradável, além dos vocais excelentes e variados. O ritmo das músicas alternam entre passagens mais agressivas e momentos cadenciados. Destaque para a faixa "Aweking from the Dream of Life".

O segundo cd é intitulado Metaflesh e é composto por cinco faixas. É aqui que o álbum evolui e se desprendo um pouco das influências óbvias apresentadas no primeiro cd. A parte instrumental no segundo cd é mais expandida em relação ao primeiro. A faixa "Metanoia" tem uma pegada progressiva ótima, com riffs bem trabalhados e é conduzido por um vocal limpo bem agradável. "Satori" já possui um ritmo mais cadenciado, destaque para o ritmo tribal na bateria e os vocais realizando verdadeiros cânticos, criando aquele clima ritualístico sombrio. "Above the Stars of God" é a melhor faixa do álbum pra mim, digo isso sem nenhuma dúvida. Incrivelmente construída, a faixa evolui de uma maneira sútil, repleta de passagens mais progressivas e melódicas e os vocais combinados criam uma sensação única e bem tocante na faixa.

O terceiro cd é intitulado "The Supernal Clear Light of the Void" e é composto por cinco faixas. O Schammasch entrega ao ouvinte uma última parte focada em faixas conduzidas por um instrumental dark ambient e com ritmos tribais. As faixas tem uma atmosfera bem densa, com vários cânticos, uso de saxofones e até uma vibe mais drone, como na faixa que encerra o álbum. Meu destaque é para a faixa "Maelstorm".

Triangle é ambicioso e possui uma sonoridade vasta, sendo que cada um dos 3 cds que formam o álbum poderiam muito bem serem lançados de maneira independente, levando em conta suas características únicas entre si. É uma experiência sonora incrível em que a banda se empenhou muito e está repleta de participações (principalmente nos vocais), e fico ansioso pra ver o que o Schammasch pode nos oferecer no futuro. 



Tracklist:

CD1:

01 – Crepusculum
02 – Father’s Breath
03 – In Dialogue with Death
04 – Diluculum
05 – Consensus
06 – Awakening from the Dream of Life

CD2:

01 – The World Destroyed by Water
02 – Satori
03 – Metanoia
04 – Above the Stars of God
05 – Conclusion

CD3:

01 – The Third Ray of Light
02 – Cathartic Confession
03 – Jacob’s Dream
04 – Maelstrom
05 – The Empyrean

Ouça em: Spotify

quinta-feira, 19 de maio de 2016
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Vokonis - Olde One Ascending

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Gênero: Stoner / Doom Metal
País: Suécia
Ano: 2016

Comentário: Não me lembro quando foi a última vez que fiz uma resenha e tenho medo de ter perdido o jeito (que já não era dos melhores), mas aos poucos espero retornar à minha frequência habitual que possuía aqui no Ignes.

Meses se passaram e muita coisa rolou, já estamos quase na metade de 2016 e já foram lançados muitos álbuns que estão fazendo a mente da galera. Entre os lançamentos que escutei, um que  está sempre na minha playlist é o Olde One Ascending do Vokonis.

O Vokonis é um trio sueco da cidade de Borås, formado por Jonte Johansson (baixo), Emil Larsson (bateria) e Simon Ohlsson (vocal e guitarra) e como muitas bandas do estilo que surgiram no país, também querem alcançar o público com uma sonoridade bastante familiar para aqueles que gostam de um Stoner / Doom bem tocado e pesado.

As faixas conseguem ser empolgantes o tempo todo, as variações de ritmo agradam, os refrões são marcantes e tudo flui de um jeito bem natural. Apostando no básico o Vokonis conseguiu criar um álbum sólido, que se por um lado não apresenta nada que não soe como novidade, agrada pela execução bem feita e faixas bem estruturadas, com uma produção de muita qualidade. A temática da banda, assim como de muitas outras, é inspirada em obras do H.P. Lovecraft e conta com uma capa incrível.

O vocal de Simon é um ponto positivo no álbum na minha opinião, agressivo sob medida e potente, combinando muito bem com a sonoridade feita pela banda, que não deixa o ouvinte desprender sua atenção do álbum. Os riffs principais das faixas são bem marcantes e um verdadeiro murro na cara (nesse caso na orelha). Os solos são ótimos, sempre trazendo um fuzz bem agradável e vários momentos bem ao estilo sabbhatico do Iommi. Isso já é perceptível na faixa de abertura do álbum. O baixista Jonte também se mostrou bem hábil ao decorrer do álbum e durante os solos de guitarra, mantém um ritmo forte e preciso no baixo, cooperando muito com o os solos de Simon. O baterista Emil se mostra versátil e preciso em todos os momentos, além de caprichar nas partes mais agitadas das  6 faixas que compõem o álbum.

Olde One Ascending é um álbum gostoso de se ouvir, e ao menos pra mim, foi bem viciante desde a primeira vez que ouvi e não me deu aquela sensação de cansaço ou desinteresse. A banda, como muitas que surgem ao decorrer dos anos, tem um bom potencial a ser explorado, e conseguiu ao meu ver dar o primeiro passo em grande estilo com seu debut. Destaque para as faixas "Acid Pilgrim" e "King Vokonis Plague".





Tracklist:

01 - Olde One
02 - The Serpent's Alive
03 - Acid Pilgrim
04 - Shroomblade
05 - King Vokonis Plague
06 - Hazmat the Ashen Rider


Ouça em: Bandcamp


terça-feira, 17 de maio de 2016
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Anohni - Hopelessness

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Gênero: Pop/Eletrônico
País: EUA
Ano: 2016

Comentário: Por trás do nome Anohni está Antony Hegarty, um artista transgênero que fez sua carreira à frente do Antony & the Johnsons, um grupo musical novaiorquino que conquistou certo sucesso, especialmente em 2005 com o álbum I Am A Bird Now. Anohni é dona de uma voz estupidamente incrível, e isso já deveria convencer qualquer um de ouvir Hopelessness. Mas tem muito mais aqui.

Anohni é um indivíduo transgênero, e como tal (como qualquer cidadão com mínimo de consciência, capacidade crítica e pensamento independente deve saber) sofre preconceito, opressão e marginalização pelos poderes políticos e paradigmas sociais vigentes. Dessa forma, não é surpreendente a posição política indignada e revolucionária da cantora,  que se mistura docemente a melodias pop e melódicas lambuzadas pela sua voz grave e encorpada. As letras são tão explícitas que tornam o som quase experimental, ainda que não pretenda exatamente ser. Temos aqui músicas como "Watch Me", que versa sobre perseguição governamental, "Execution" que versa sobre exatamente o que parece, execução, e como penas capitais unem culturas supostamente tão diferentes quanto os Estados Unidos e a Coréia do Norte ou ainda "Drone Bomb Me", que nas próprias palavras de Anohni: "É uma canção de amor na perspectiva de uma menina afegã de nove anos cuja família foi morta por uma bomba atirada por um drone. Ela está olhando pro céu, enquanto se vê pedindo para ser morta por uma bomba também".

E para jogar tudo isso na sua cara hétera, branca e de classe média, ainda tem um clipe com a Naomi Campbell:

Drone Bomb Me - by ANOHNI from nabil elderkin on Vimeo.

Lágrimas devidamente escorrendo pela cara, ainda vale dizer como a voz diferenciada de Anohni também contribui, claramente tão transgênera quanto a cantora, para criar uma atmosfera desconfortavelmente melódica. O instrumental é eletrônico e suave, mas devidamente quebrado a gosto de Oneothrix Point Never e Hudson Mohawke, que participam do disco. Se você os conhece, já sabe que pode esperar baixos poderosamente profundos de Mohawke e as edições pouco convencionais de Oneotrhix, que tornam o vocal de Anohni ainda mais desconcertante. É inclusive contraditório rotular esse disco como 'Pop', e o faço por mera incapacidade de escolher gênero melhor, por que a sonoridade do disco é demasiada intensa para ouvidos populares. É como se Anohni na verdade quisesse ter mesmo é uma puta banda de grindcore berrando loucamente as mais revolucionárias e odiosas letras, mas por mero capricho ou teimosia encapsula tudo isso num pop melódico radialístico. E isso é maravilhoso. Diga-se de passagem, desde 2006 a cantora faz colaborações com o Current 93, por exemplo, o que já é sinal que há muito mais aqui do que mero pop.

O disco é inteiramente fantástico e certamente figurará entre tops de 2016. E a fórmula com que vem consegue levar críticas à ouvidos que dificilmente as ouviriam de outra forma. E a melhor parte é que apesar da politização das letras, todas as críticas são sobre coisas tão claramente óbvias que ficam acima de espectros políticos. Difícil superar esse álbum e a forma com que nos faz ao mesmo tempo nos deliciar e nos incomodar com nossas hipocrisias. O que é totalmente necessário.



Tracklist:

1. "Drone Bomb Me"   4:10
2. "4 Degrees"   3:51
3. "Watch Me"   3:26
4. "Execution"   3:38
5. "I Don't Love You Anymore"   5:00
6. "Obama"   4:11
7. "Violent Men"   2:10
8. "Why Did You Separate Me from the Earth?"   3:36
9. "Crisis"   4:42
10. "Hopelessness"   3:54
11. "Marrow"      3:01

Ouça no Spotify.


terça-feira, 12 de abril de 2016
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La Dispute - Somewhere at the Bottom of the River Between Vega and Altair

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Gênero: Post-Hardcore
País: EUA
Ano: 2006

Comentário: Por mais datado que soe o gênero "Post-Hardcore" num contexto "2008", os primeiros acordes já denunciam novidade e a constatação que La Dispute é muito mais que uma banda de Post-HC. Especialmente pela fervorosa adoração com os quais muitos fãs da banda se apresentam, e isso foi a primeira coisa que me chamou atenção sobre o grupo. Raramente tal furor é infundado.

Este álbum que vos apresento foi o primeiro Full-Lenght da banda depois de um intenso EP, Vancouver, de 2006. A levada é mais rápida que os futuros lançamentos do grupo, mais Post-Hardcore em si, porém os elementos mais importantes da banda já se fazem presentes: o liricismo do vocalista Jordan Dreyer, a influência massiva do Jazz e o spoken-word. Dreyer, de fato, antes da banda já era poeta e isso foi transportado para o La Dispute na forma ainda de um vocalista versátil, que consegue susurrar, berrar e cantar de forma característica dentro de um nicho onde quase todos os vocalistas tentam soar o mesmo. Uma das primeiras coisas notáveis na sonoridade da banda é a praticamente initerrupta sequência de versos na maioria das músicas. Há poucos momentos somente instrumentais - embora eles existam e sejam tão poderosamente poéticos quanto os versos. No geral, as palavras são metralhadas em nós sem piedade. O que de certa maneira é até cruel, dada a sinceridade e intensidade da poesia de Dreyer.

Enquanto a poesia é cantada ou declamada, o instrumental da banda acompanha. Por vezes dissonante e intenso, o clima que mais fica na cabeça, no entanto, é uma melodia cadenciada e atmosférica, altamente influenciada pelo ritmo spoken-word de muitos trechos de músicas da banda. Em termos gerais, a capacidade do La Dispute de absorver o ouvinte é um absurdo. A transição entre vocais mais lentos e berros é tão suave e bem colocada que a previsibilidade nesse caso é extremamente prazerosa. A vibe de "desabafo" é algo totalmente constante na discografia da banda e essa mistura é crucial pra que isso se construa.

Somewhere... é uma excelente maneira de começar a entender o La Dispute, e daí partir pro resto da discografia. De preferência e quase obrigatoriamente, devidamente acompanhado as letras ao mesmo tempo para total e absoluta degustação da banda. Definitivamente não recomendo, no entanto, se você não quiser correr o risco de dar de cara com machucados internos. Mas se o seu dia já está indo dessa pra uma melhor, caia dentro e vá até o fundo de vez.



Tracklist:

1."Such Small Hands"  1:35
2."Said the King to the River"  4:01
3."New Storms for Older Lovers"  4:59
4."Damaged Goods"  2:55
5."Fall Down, Never Get Back Up Again"  2:45
6."Bury Your Flame"  4:35
7."Last Blues for Bloody Knuckles"  5:00
8."The Castle Builders"  2:46
9."Andria"  4:20
10."Then Again, Maybe You Were Right" 1:36
11."Sad Prayers for Guilty Bodies"  3:46
12."The Last Lost Continent"  12:02
13."Nobody, Not Even the Rain"  1:10


Ouça aqui: Spotify
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
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Bandas Amigas: Galego

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Artista paulistano que vai do transe atlântico ao trance espacial. Se aventura por diversas linguagens. Em uma de suas musicas diz: "keep me out of the mold, out of the line, outside the rules/ let me follow the unknown, i want to burn me all, all inside you (mantenha-me fora do molde, fora da linha, fora das regras/ deixe-me seguir pelo desconhecido, eu quero me queimar todo, todo dentro de você).

Ao fixar o texto acima, proveniente da página do artista, e encerrar o post desta forma é inevitável não transmitir um sentimento de preguiça. Mas verdade seja dita: a descrição acima realmente resume muito bem o trabalho de Galego.


Mas vale ressaltar diferenças entre seus dois — e que não sejam os únicos — discos. Com uma sonoridade e estética claramente importada do hemisfério norte, um gringo despojado, o disco The Man of Tomorrow lançado em outubro de 2015 faz eficaz uso do eletrônico e do indie/rock alternativo, além das letras em bom inglês. Ou se preferir como o próprio músico avalia: canções que passeiam de forma ousada pelo universo eletrônico-indie-rock-algumacoisa. The Man of Tomorrow se mostra um trabalho realmente pessoal, com Galego participando de todas as etapas (composição, gravação, produção, mixagem e masterização) sozinho.


Em contraste, Transeatlântico (2014) é aquele disco brasileiro para quem gosta da chamada "nova bossa", "nova mpb", no qual temos uma grande variedade sonora, tanto de gêneros como de épocas da música, sendo compatível com o som de músicos e bandas como Leo Cavalcanti, Curumin (que inclusive faz uma participação no disco), Karina Buhr, Cidadão Instigado, ou seja, um tanto swingado, um tanto romântico, um tanto pop, um tanto indie, um tanto tanta coisa. Assim não é difícil imaginar que Transeatlântico foi aceito facilmente, conseguindo o destaque que merecia.
Neste disco Galego dividiu as tarefas com Cris Scabello e Mauricio Fleury, membros do Bixiga 70, além de outros nomes.

Ambos os discos podem ser baixados no site do músico e também estão disponíveis para audição no Spotify e SoundCloud. Ah, e curta a sua página no Facebook.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
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Luiz Melodia - Pérola Negra

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Gênero: MPB / Samba /  Avantgarde
País: Brasil
Ano: 1973

Comentário: Do morro São Carlos, Estácio, Rio de Janeiro, nasce um dos maiores nomes da musica brasileira. Luiz Carlos dos Santos, ou Luiz Melodia é um dos nomes de maior peso da MPB. Carioca, guerreiro, poeta, Luiz Melodia enfrentou a dureza do tempo até que sua paixão pela musica e, sobretudo talento, foi finalmente encontrado por ouvidos próprios como os de interpretes na altura de Gal Costa e Maria Bethânia, que gravaram algumas composições do músico pouco tempo antes do lançamento de seu disco de estreia: Pérola Negra.

Filho do músico Osvaldo Melodia, Luiz sempre foi atento à arte e à sonoridade. Frequentava, com seu pai, rodas de samba e fez disso sua escola. Escola que foi completada pelo interesse no blues, soul, rock e outros gêneros musicais que viriam mais tarde a completar a linguagem sonora do artista. Faz-se assim uma das mais importantes obras da Música Popular Brasileira, que é lançada em 1973 e mostra então, mais uma vez com genialidade, a faceta do músico brasileiro de conseguir explorar a diversidade e reformar a identidade.

Pérola Negra, como já disse, carrega consigo uma bagagem enorme de influencias que até então estavam começando a ser finalmente exploradas por músicos brasileiros. Como um disco pós-tropicalista, é de se esperar algo deveras atípico ao já escutado no Brasil, e assim o é. Luiz Melodia soube dar vida à experiência perfeita entre elementos pouco usados no meio do samba e do popular com naturalidade e acuidade.

A poesia de Luiz Melodia é algo que se destaca por si só, há uma magia em suas palavras que encanta e ensina. Estácio, Eu e Você começa o álbum com um sambinha simpaticíssimo guiado à cordas e sopro. Vale quanto pesa com belos dedilhados encanta mais tarde com os metais e swing tão próprios. Estácio, Holly Estácio, gravado por Bethânia outrora, e Abundantemente Morte são aulas de poesia e musicalidade. Pra Aquietar volta ao swing’n’roll genial de Luiz Melodia. Perola Negra, que dá nome ao disco é de novo um festival de metais com uma pitada soul incrivelmente enérgica, e profundidade poética e harmonia estética que marcaram para sempre a MPB. Magrelinha dá ótima continuidade à Pérola Negra, e foi acompanhamento sonoro em uma cena do filme Cidade de Deus, fazendo uma belíssima aparição no cinema. Farrapo Humano e Objeto H levam de novo o disco lá pra cima, com um swing jazzístico distinto. Forro de Janeiro, a ultima faixa é uma menção interessante ao ritmo nordestino.

1973 é um ano incrível na musica brasileira, e esse é talvez o melhor lançamento deste.


Tracklist:
1. Estácio, Eu e Você - 2:16
2. Vale Quanto Pesa - 3:11
3. Estácio, Holly Estácio - 2:30
4. Pra Aquietar - 2:47
5. Abundantemente Morte - 3:28
6. Perola Negra - 2:50
7. Magrelinha - 2:07
8. Farrapo Humano - 3:12
9: Objeto H - 2:25
10. Forró de Janeiro - 3:15

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terça-feira, 26 de janeiro de 2016
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Gnaw Their Tongues & Dragged Into Sunlight - N.V.

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Gênero: Black/Doom Metal/Noise
País: Holanda / Reino Unido
Ano: 2015

Comentário: Dragged Into Sunlight uma banda de Black/Doom Metal das mais doentias, com vocais rasgados, cadencias pesadíssimas e com um pé no Grind. Gnaw Their Tongues, por outro lado, é o nome com o qual Maurice de Jong, ou Mories, como se auto-intitula, executa um dos mais obscuros formatos de Noise, um Dark Ambient desconcertantemente variado, imersivo e mórbido. N.V. é a mistura dessas duas vibes que simplesmente nasceram pra que essa união acontecesse.

Em 2011 as duas entidades se uniram, inicialmente como uma forma de tributo ao Godflesh e seu seminal Industrial. N.V. é o debut dessa colaboração, fruto da edição de mais de três horas de material em pouco mais de meia hora de disco. O Dragged Into Sunlight tem por hábito usar diálogos de serial killers e assassinos em suas músicas (não necessariamente uma novidade no Metal), mas nesse álbum é que realmente esses diálogos encaixam perfeitamente com a música. A forma fria e metódica que se ouve falar da morte pela boca de criminosos bárbaros é exatamente a atmosfera do disco. Algo tão extremo que parece errado, mas ao mesmo tempo artisticamente prazeroso pra aqueles que se interessam por esse nível de obscuridade.

A união das duas bandas é tão fantástica que praticamente nada se perde de nenhum dos dois lados - as músicas seguem essencialmente a mesma fórmula de sempre do Dragged Into Sunlight ao mesmo tempo que soam completamente sinceras e coerentes com o Noise sinistro do Gnaw Their Tongues. A bateria come solta, dando trégua apenas nas partes mais cadenciadas onde o peso absurdo das guitarras gravíssimas tomam conta. As guitarras vem acompanhadas de sons bizarros, nauseantes e hipnóticos do Dark Ambient, abusando de dissonâncias para dar mais ênfase ainda na atmosfera obscura.  Enquanto isso, os vocais estrangulados do Dragged Into Sunlight ficam ainda mais profundos e sinistros cobertos de distorção. Nos trechos mais extremos, as guitarras e as baterias se sobressaem, até o momento onde o Noise e o Dark Ambient lentamente vão tomando conta e a música vai afundando numa dissonância grave e sinistra, com os vocais rasgados colaborando para o absurdo acontecer. Aí entram os trechos mais cadenciados, com vocais graves e profundos e diálogos dos assassinos. É deliciosamente assustador. Ainda há momentos onde o Ambient sobressai, com as guitarras mais caladas, mas com a bateria e os vocais do Dragged Into Sunlight fazendo parte de uma tensa e sinistra parede sonora.

Os próprios autores da obra declaram o disco como um tributo a genialidade do Streecleaner do Godflesh e sua influência na música extrema. Justin Broadrick inclusive finalizou a produção do disco. A arte da capa é assinada por Seldon Hunt, que trabalhou com bandas do naipe de Khanate, Neurosis, Sunn O))) e afins (apesar de que, né, está ali mais pela referência do que pela arte em si, que não é nada demais). A melhor parte de N.V. é o álbum fazer parte de uma direção maravilhosa que algumas bandas de metal tem tomado, que é buscar sonoridades mais extremas não no Metal em si, mas no Industrial e no Noise. Não que isso seja novidade, vide o próprio Godflesh, mas isso parecia ter se apagado por algum tempo e agora volta potente com a vibe "crust" de muitas bandas de Black Metal dos anos 10 do séc. XXI. Que tudo se afunde cada vez mais nessa escuridão.





Tracklist:

1. Visceral Repulsion 05:50
2. Absolver 07:54
3. Strangled with the Cord 05:16
4. Omniscienza 06:40
5. Alchemy in the Subyear 06:41


Ouça:

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domingo, 24 de janeiro de 2016
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BANDAS AMIGAS #10 - Cássio Figueiredo

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Confesso que é um pouco estranho chegar a esse momento da carreira de Cássio Figueiredo, quem um dia já fez parte da staff do Pignes e sempre será meu bom e grande amigo Cás. Até a própria afirmação ou questionamentos do sujeito – fazendo um trocadilho medíocre com uma das produções dessa “nova” fase que, por fim, não é uma fase e sim ao que parece o zênite de uma produção contínua ou quase contínua – me puxa lembranças e indícios de uma época que, agora, parece tão evidente que Cássio convergiria. Sempre fui muito fã de sua trajetória (sobretudo do ponto de vista estético da coisa), de ver alguém tão jovem com um peso artístico tão grande passado por nós de maneira sorrateira e que vem se consolidando com o tempo; como ele próprio me disse recentemente “você me viu crescer”. E vi, sim, cresceu como pessoa e como artista que, quase como um deja-vu, eu volto para falar da música do Cás aqui no site como um dia fiz em Less.

Cito Less porque vejo a essência do artista por trás da música transmitida de outra forma bem diferente. Neste tão antigo projeto, Cássio trazia uma reminiscência pesada do Metal efervescente da época (da nossa e da dele). Contudo, o modo caseiro e despretensioso de fazer a coisa, a subversão do feio como belo, o contrassenso da musicalidade e harmonia já presente em seus primeiros ensaios se arrastaram e se elevaram, ou melhor, decaíram (no sentido de "se recolheram", "tornaram-se intimista", "voltaram para dentro") faixa a faixa à medida que Cássio vinha se encorpando ao Noise, ao Shoegaze, ao Drone e às diversas experimentações que um artista pode fazer para expressar sua criatividade, até chegar ao momento mais intimista e maduro que eclode em seu último lançamento, Presença (2016), disco este que tem ainda a parceria com Cadu Tenório, quem por sua vez já foi citado em seu trabalho ao lado de Juçara Marçal aqui.

Esses dias, refiz quase toda trajetória de Cássio em sonoridade e fotografia, tracei as texturas e tudo me comove e leva a pensar que Presença é sim um disco pessoal – do artista para conosco e do artista para com ele –; não que os demais não sejam (sempre é), mas este em especial soa com um rito de passagem, o início ou fim de uma era; Cássio também me disse que talvez a diferença de Presença para os demais discos lançados foi seu tempo de maturação até ser de fato lançado. Como falei anteriormente, o que me chama atenção não é apenas a música dele em sua forma técnica, exposta na sonoridade de violão, violino, software, gaita, colagem de som digital, fita cassete ou, como ele mesmo me disse “objetos”. Contudo também a interligação da música com as sensações/emoções, historias por traz da criação (onde fez? como fez? por que fez ou pra quem fez?), a estética dos projetos e conceitos que, por sua vez, falam por si só.

Por fim, não adianta dissecar disco a disco, tendo em vista que Presença é evidente, porém não é o único. Cá presenciamos a notoriedade da música de um artista de muito tempo, onde Cássio Figueiredo traz vários projetos nas costas com músicas que precisam obrigatoriamente serem ouvidas e não explicadas, pois é sempre válido ressaltar que a música é acima de tudo subjetiva. Do meu lado, aquele que acompanha a trajetória, me faltam palavras para expressar o orgulho que sinto por esse menino (que sempre foi precoce) e digo, não apenas por mim, mas por todos os outros daqui do Ignes que são da mesma época que Cás, que este foi um bandas amigas que já um tempo devíamos a ele e, particularmente, escrevi com lágrimas nos olhos, pois levo ao sentido bem literal da ideia: amigo.

Less / Inutiargu / "Partir" de Projétil / Cássio Figueiredo / Soundcloud

Presença (2016)


O nome "presença", assim como a imagem escolhida pra ilustrar, foram questionados por mim como escolha pra esse trabalho durante todo o tempo que se passou desde o momento final das gravações até hoje, um dia depois de eu ouvi-lo finalizado pela primeira vez. Minha dificuldade de escrever sobre tudo o que aqui se manifesta perdurou por todo esse tempo e persiste até agora. Meu esforço e insistência em tentar descrever essa presença que sinto, o clima que me envolve, os símbolos que com tanta força tento interpretar da melhor forma possível. Está tudo aqui, disperso e junto, caótico e distinto, e minha carta de rendição a qualquer forma de separar criador e criatura.




Sujeito (2015)

A busca pela construção de um eu lírico sedento por identidade e por uma delimitação frágil o suficiente para admitir a ocorrência de posteriores alterações. 

Vejo o projeto como uma exposição do exercício reflexivo de um autor puramente empírico. Sem grandes pretensões, a minha intenção foi justamente a criação de uma obra relativamente não-convencional que expusesse da maneira mais egoísta (aqui no melhor sentido da palavra, se é que existe) o que provém de mim, das minhas experiências e impressões. 

Longe de ser a única leitura válida e que põe fim e limite ao EP, é antes apenas uma das várias que podem o preencher de significado, ou paradoxalmente o despir do mesmo, visto que é tão íntimo que pode chegar a não apresentar mesmo signo nenhum. 

"Sujeito" é uma exaltação ao modo corrente de percepção de si enquanto indivíduo. 

Enquanto indivíduo que ama, que sofre, que vive, que percebe, que conhece, que sente, e que pensa. 
E ao mesmo tempo que não está livre das amarras das suas próprias paixões, desejos, afetos, relações e ideias. 

Pois está e é sujeito. 

A si, e a todas essas coisas.


 
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