quarta-feira, 1 de junho de 2011
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Coletâneas Pignes 2011: Música Brasileira

2 comentários

Nesse terceiro dia de coletâneas, é a vez do nosso amigo Damien, que se empolgou um pouco e fez uma coletânea de 25 músicas e uma resenha indecentemente grande (porém muito bem feita, é uma mini aula de música tradicional brasileira).


Comentário: Para não fazer uma coletânea tão misturada e sem sentido musical, foi optado 'limitar-se' no Choro, Samba e Bossa-Nova. Entretanto há indícios de outros estilos nesta lista, e elementos um tanto não tão adotados.
Também não posso classificar como uma coletânea brasileira, visto que trouxe nomes renomados que se encarregaram de exportar nosso som ao mundo, e também você ouvirá um (a) novo (a) artista fazendo o mesmo, mas em terra ainda mais distante.
Aqui trago um pouco de tudo — ou tento — como partido alto, samba raiz, um puxadinho de MPB, uma boa proza com o jazz e até uma aventura no experimentalismo. Tudo isso tentando fugir do rock, que se fosse livre, OMG, seria um martírio ainda maior formar uma lista com apenas 20~25 músicas.
Quanto aos clássicos, aos pioneiros de cada fase/subgênero, tentei colocar alguns, mas não quis focar nem neles e nem nos maiores representantes, já que são sempre mencionados, inclusive já postei — e outros uploaders — alguns deles aqui. Entretanto não os ignorei, claro, mas adicionei também novos nomes, nomes gozados, nomes desconhecidos. Em geral ela vai desde o terreiro até o cinema, desde o boteco até o sambódromo, desde o morro até a novela das nove.
Contudo deixei o pagode de lado. Não por simplesmente achar vulgar — visto que quase tudo que eu ouço tenta soar vulgar — , mas sim pelo ritmo pouco atrativo. Mas mesmo assim coloquei uma das grandes de Zeca Baleiro com participação de Zeca Pagodinho — este que sem dúvida é o grande nome atual do gênero. Nem mesmo teu pagode me simpatiza ao ponto de parar para ouvi-lo, mas seu samba é sempre bem humorado e vale muito a pena ser tocado naquele churrasco, além de ser um dos poucos cantores famosos de samba que ainda seguram o partido-alto em sua carreira. Já Zeca Baleiro é uma batida de estilos, como bem sabemos, tendo quem adore e quem odeie.

Deixei também grandes nomes de fora, eu sei, mas foi proposital. Quanto às músicas, não me liguei na ideia de quais representam melhor, quais as 'melhores', mais conhecidas, etc. e tal, mas sim naquelas que me cativam, e que realmente é o importante: uma coletânea sincera. Coerência? Bom, não é fácil, já que eu não foquei nem em um, nem em outro, viajando em épocas diferentes. A sonoridade de músicas interpretadas por Carmen Miranda, por exemplo, sempre soam antiquadas, ou mesmo brega para alguns. Por outro lado Novos Baianos sempre dá um ânimo surpreendente, até mesmo ultrapassado as composições mais alegres e sempre pareceu à frente do seu tempo. Satanique Samba Trio distorce o gênero em segmentos, mas mantem a essência. Baden Powell só no virtuosismo... Enfim, talvez não seja fácil acompanhar, mas todas são ótimas músicas, o que faz disto realmente uma playlist em modo randon, e não um disco.



Partindo para as apresentações e um pouquinho de conhecimento:

Trio Madeira (Machucando): o Trio Madeira já foi apresentado anteriormente na soundtrack Brasileirinho - Grandes Encontros do Choro Contemporâneo, e é sem dúvida uma das minhas favoritas deste documentário. Composto por Adalberto de Souza, um músico do qual possui uma biografia desconhecida, mas que aparentemente é sogro de Abel Ferreira. Coincidentemente esta música ganhou destaque mundial depois deste mesmo documentário que publiquei. Aqui, Machucando é executada pelo já dito Trio Madeira.

Novos Baianos (Vamos Pro Mundo): banda que há muito venho pensando em postá-la. Normalmente eles fazem um samba de partido-alto muito influenciado pelo rock, sem esquecer-se de temperar com outros estilos, mas aqui tentei pegar algo mais carente dele.
Gosto deles por serem mais despretensiosos, fazerem música aqui e agora, ao vivo e a cores, e sempre ter um resultado magnífico. Vamos Pro Mundo é um exemplo disto, e também mostra o bom humor e a simpatia. Curiosidade: Seu segundo disco, Acabou Chorare, foi considerado pela revista Rolling Stone como o maior disco da história da música brasileira.

Chico Buarque (Homenagem Ao Malandro): Chico Buarque é meu cantor e letrista brasileiro favorito e não pense que eu faria uma coletânea sem ele. Possui muitas e muitas boas pedidas, mas cá trago Homenagem Ao Malandro, que sem um porque definido foi escolhida com dificuldade. Música bem conhecida de quem já teve a oportunidade de ver Ópera do Malandro.

Carmen Miranda (E o Mundo Não se Acabou): pode parecer sátira, e É! Inicialmente esta música foi composta com este mesmo propósito (composta por Assis Valente): satirizar um provável fim próximo do mundo. Isso lá em 1938. Hoje, antes mesmo dessa algazarra praticamente internética, eu já a tinha colocado nesta lista. Mas bem, veio o anuncio do fim do mundo, e o que eu fiz? Claro, tinha de deixá-la, não teve como. Fora isso é uma das minhas prediletas interpretadas por Carmen Miranda.

Sérgio Mendes (Jazz "N" Samba (Só Danço Samba)): Música original de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, mas aqui nadinha de letra (como se a original tivesse muitas delas...), ficando somente com o instrumental: Sérgio Mendes (piano), Tião Neto (baixo), Edison Machado (bateria) e Rosinha de Valença (violão). Mendes é um dos grandes representantes da fusão samba e jazz.

Stan Getz & Charlie Byrd (Samba Dees Days): a escolha de Stan Getz para a coletânea foi uma das mais representativas. Ele, saxofonista estadunidense, foi um dos maiores exportadores da nossa música, em princípio a bossa-nova, para o mundo. Sempre esteve ao lado de grande nomes, incluindo os brasileiros. Charlie Byrd veio para amplificar a exportação, um respeitável violonista — também estadunidense — que é considerado um dos maiores entendedores da música brasileira fora do Brasil.

Abel Ferreira e seu Conjunto (Gaúcho (Corta-jaca)): falando em Abel Ferreira, cá está ele. Autodidata em praticamente tudo, se tornou um excelente clarinetista e se ocupou do Choro, mas esta música pertence à Chiquinha Gonzaga, a grande compositora, pianista e regente de tango à brasileira, choro e alguns outros gêneros. Aqui poderá ouvir uma versão mais próxima a original, e também notar que foi usada como clipe de encerramento da Minissérie Chiquinha Gonzaga, da Rede Globo. A versão de Abel Ferreira ficou ótima, tem toda uma particularidade que não sei explicar, mas claro, tornou-a mais sambista.

Bossa Três (Céu e Mar): colocar este trio é uma forma que usei para representar tantos e tantos trios de Bossa que existem. São muitos mesmo, a grande maioria sempre fazem música própria ainda, mas Bossa Três é uma das antigas. Composta por Luiz Carlos Vinhas (Piano), Sebastião Neto (baixo) e Edison Machado (bateria), fazem um bossa mais jazzístico e totalmente instrumental. Também é a primeiro conjunto instrumental de bossa, criado em 1961. Aqui o nome de Edison Machado se repete, e por aí vi que é considerado, por alguns, como o maior baterista do Brasil. Bom, quanto a esse assunto eu me desvio, mas fica aí a curiosidade em estudar sua carreira. Retirei esta música do disco Bossa Nova, que vale uma ouvida.

Nosso Trio (Brooklyn High (Partido Alto)): mais um belo trio, mas este soa bem mais moderno, até porque é. Brooklyn High (Partido Alto) foi retirada do disco Vento Bravo, de 2005. O mais legal é que não tinha notado nada anteriormente, mas ao ouvi-los mais vezes, principalmente acompanhando o baixo (um dos bons destaques do trio) notei certa influência de João Bosco. E NÃO É MENTIRA! Esta é a banda que acompanha realmente João Bosco, e como todos os que já o ouviram, suas músicas são realmente únicas. Enfim, confiram o disco, é excelente.

Tom Jobim & Elis Regina (Águas de Março): Buarque não é o único queridinho, por isso eles: Tom Jobim e Elis Regina estão aqui como convidados de honra. Pensei até em postar duas músicas, uma de cada, mas não, acabei não conseguindo deixar de lado esta, que na minha humilde opinião é uma das MELHORES canções brasileiras (mesmo não conhecendo nada) e mais especificamente em sua melhor versão. São as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no teu coração.

João Bosco (De Frente Pro Crime): uma das composições musicalmente divertidas de Bosco, e liricamente interessantes pra mim, me fazendo lembrar das de Buarque. Usar de referências comuns, como podemos ouvir nessa letra, é uma das formas de composição mais agradáveis. Nesta música linda eu destaco principalmente: Letra, baixo e seu teor mais grave e a interpretação de Bosco, que de certa forma dão uma cena de novela em nossas cabeças.

Satanique Samba Trio (Cabra da Pestre Negra): achou os títulos estranhos? Isso é porque você ainda não a ouviu. Satanique Samba Trio é uma das bandas mais diferentes que pude ouvir e que mergulha no lago do samba. É uma grande pedida para quem gosta de experimentalismo, como Hermeto Pascoal, mas com um toque mais sinistro, e algumas vezes mais agressivo, como se fizesse referência ao rock pesado. Seu disco é uma experiência de bossa, samba, rock e jazz fusion com alto teor maléfico. São brasilienses.

Alaíde Costa (Ciúme): representando as musas das antigas, mas especificamente na bossa, ao qual é considerada uma das maiores representantes. Ciúme foi retirada do disco Alaíde Canta Suavemente, que respeitando o título só contem músicas leves, de amor ou melancólicas. Assim também se torna o lado romântico desta lista.

Tom Zé (Tô): grande Tom Zé, louco, decente e assim como esta descrição, auto contrastante. Participante ativo do Tropicalismo, é um dos mais originais músicos brasileiros, um liquidificador ambulante, um experimentador abusivo. Apesar de quando se trata de samba e relacionados, seu nome não venha grudado, Zé em sua carreira construiu três discos semelhantes, mas distintos: Estudando o Samba (1976), Estudando o Pagode (2005) e Estudando a Bossa (2008), serviu de prato cheio e pode referenciar o MPB aqui.

Luiz Bonfá (Cantiga Da Vida): Cantiga Da Vida é um disco lindo, variando entre faixas instrumentais e cantadas, suavemente por Bonfá. É um grande músico, na minha concepção muito mais conhecido lá fora que aqui, mas posso estar errado, mas ao certo um ponto marcante e que somou muito ao seu reconhecido foi o de ter participado da trilha sonora do filme Orfeu Negro, de 1959, ao lado de Tom Jobim.

Agostinho Dos Santos (Chega de Saudade): esta música é a das mais conhecidas, logicamente, mas aqui ela não foi acompanhada por seus criadores (Jobim e Vinicius), mas por Agostinho Dos Santos, cantor e compositor do qual confesso ter conhecido durante algumas recentes pesquisas. O instrumental é muito bom, mas o que mais me agradou foi sem dúvida o seu vocal, dando uma roupagem diferente a esta clássica canção e também aos backvocals, lembrando um pouco da música norte-americana da época. Curiosidade: Morreu em 1973 em um desastroso e polêmico acidente aéreo.

Beth Carvalho (As Rosas Não Falam): ou Madrinha do Samba, é uma das maiores intérpretes do samba, disso ninguém tem dúvida, mas é também uma das pessoas ao qual tenho que melhor explorar... No bom sentido. Com um ritmo mais lento, como se aqui os instrumentos acompanhassem o vocal, e não o contrário, apresenta a melancolia, o romance dramático. A música é de autoria de Cartola e está no disco Cartola II de 1976.

Zeca Baleiro & Zeca Pagodinho (Samba do Approach): para animar trouxe esta música, uma parceria entre o misturador Zeca Baleiro e o boa vida Zeca Pagodinho. Completamente intencional, guardei lugar para esta música que fora usada em novela (não me pergunte qual) e teve seu destaque por um bom tempo na televisão. É também a mais próxima do que chamamos de Pagode, mas com suas especialidades já que se trata de uma música de Baleiro. É também divertida, no qual os dois se comunicam e tiram sarro um do outro o tempo todo.

Anjos do Inferno (Brasil Pandeiro): a música pertence a Assis Valente, um poeta até a morte, e é uma das mais conhecidas dele. Tornara-se memorável ao ser interpretada por Novos Baianos, mas aqui é o Anjos do Inferno que interpretam, um grupo cujo nome é uma ironia ao Diados do Céu, liderado por Pixinguinha. Tem toda uma sonoridade própria, se comparada aos demais, mas aqui destaco principalmente os backvocals, que dão toda uma refinada.

Zé Keti (Acender as Velas): considerado um dos criadores, se não o criador do samba de morro, Keti virou a Voz do Morro, assim como sugeria uma de suas músicas, e tem sido ressuscitado graças a documentários. É a minha escolha menos sincera, digamos assim, pois é o que menos conheço, mas Keti tem grandes obras, inclusive fora um dos compositores da Portela.

Adoniran Barbosa (Despejo Na Favela): Adoniran (João Rubinato) é um cara que faz músicas tão simples, tão humildes, mas fortes e difíceis de cantar. Posso ser um enorme idiota, mas gosto de colocar Adoniran, Cartola e Dorival Caymmi na mesma sacola, misturar e ouvir. Despejo Na Favela diz tudo e não preciso entrar em detalhes. Minha ignorância não permite.

(小泉ニロ) Nilo Koizumi (Mas Que Nada): já imaginou um japonês cantando bossa, ou qualquer estilo brasileiro? Pensou em algo realmente desajeitado? Bom, Nilo Koizumi mostra que dá pra fazer algo bonito, sem passar vergonha, mesmo que não soe natural. Com sua voz meiga, algo comum em mulheres orientais, Nilo definitivamente arrebenta, e ainda conta com um instrumental competente. Apesar da impossibilidade de pronunciar os L's, fazendo com que Preto veLHo pareça mais com Preto veRo, não me atrapalha em nada, pelo contrário, torna-a ainda mais, digamos, fofa. Ainda não ouvi nenhuma composição própria dela, então ao que parece ela atualmente só regrava os clássicos brasileiros.

Baden Powell (Amor Sincopado): violonista virtuoso de jazz e bossa, é em minha opinião o melhor dos melhores, ou quase isso. Aqui trago uma faixa de seu ainda primeiro disto, Apresentando Baden Powell e seu Violão, de 1959. Baden Powell é certamente um músico para ser ouvido, e não discutido, por tanto esqueça qualquer comentário que eu esteja tentando fazer sobre ele e OUÇA.

Ernesto Nazareth (Odeon): pra quem não conhece, Ernesto Nazareth é um dos bons e grandes nomes do tango brasileiro — ao lado de Chiquinha Gonzaga — , assim como do choro em sua versão mais erudita, e influenciado provavelmente por outros estilo considerados requintados. Curiosidade: Villa-Lobos lhe dedicou a peça "Choros nº 1", para violão.

Rabo de Lagartixa (Diabinho Maluco): é um grupo instrumental mais recente, formado na década de 90. Cinco músicos trazendo dinâmica e um olhar mais diferenciado, mas completamente embalsamado com o choro. Diabinho Maluco foi a escolhida para fechar o disco, assim como também fecha o disco Quebra-Queixo, primeiro da carreira da galera. Finalizamos assim a discografia, animadamente chorosa.

O gostoso de fazer uma coletânea como esta é poder se encontrar com o antiquado, com o moderno, com o estiloso e com o descompromissado. Também é poder, em vinte e tantas músicas, reunir quase o dobro de músicos. Sim, pois, é uma tradição brasileira regravar, fazer parcerias, e no final, sempre sair um resultado bom, ótimo, e até superior. Isso por exemplo já não ocorre tanto em outros estilos que facilmente geram apedrejamentos.

Enfim, espero que entendam um pouco a diversidade, a noção de que o jazz só surgiu algumas décadas depois do choro e de que essa coletânea não resume nada — Acredito ter feito um bom disco, mas, novamente penso ter pecado na coerência.

Tracklist

01 - Machucando - Trio Madeira Brasil e Yamandú Costa
02 - Vamos Pro Mundo - Novos Baianos
03 - Homenagem Ao Malandro - Chico Buarque
04 - E O Mundo Não Se Acabou - Carmen Miranda
05 - Jazz "N" Samba - Sergio Mendes
06 - Samba Dees Days - Stan Getz & Charlie Byrd
07 - Gaúcho (Corta-jaca) - Abel Ferreira e seu Conjunto
08 - Céu e Mar - Bossa Três
09 - Brooklyn High (Partido Alto) - Nosso Trio
10 - Águas de Março - Tom Jobim & Elis Regina
11 - De Frente Pro Crime - João Bosco
12 - Cabra da Pestre Negra - Satanique Samba Trio
13 - Ciúme - Alaíde Costa
14 - Tô - Tom Zé
15 - Cantiga Da Vida - Luiz Bonfá
16 - Chega de Saudade - Agostinho Dos Santos
17 - As Rosas Não Falam - Beth Carvalho
18 - Samba do Approach - Zeca Baleiro & Zeca Pagodinho
19 - Brasil Pandeiro - Anjos do Inferno
20 - Acender As Velas - Zé Keti
21 - Despejo Na Favela - Adoniran Barbosa
22 - Mas Que Nada - 小泉ニロ (Nilo Koizumi)
23 - Amor Sincopado - Baden Powell
24 - Odeon - Ernesto Nazareth
25 - Diabinho Maluco - Rabo de Lagartixa

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2 Responses so far.

  1. Ian Andrade says:

    Satanique Samba Trio, hein; boa. Vou baixar. Ótima resenha.

  2. Anônimo says:

    Por favor, poderiam repostar Coletâneas Pignes 2011: Música Brasileira?

    obrigado!

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