quinta-feira, 29 de novembro de 2012
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Batendo de Frente #3

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Um dos motivos pelos quais a arte como um todo, mas mais especificamente a música, é uma manifestação tão notável é o fato de que pode retratar desde o mais singelo e fútil acontecimento mundano até se tonar um poderoso instrumento de descrição de uma situação ruim, bem como uma mortífera arma de destilação de fúria contra essas injustiças. A realidade que retrata com fidelidade esse adjetivo, em nossa história, é a Ditadura Militar. Em nefastos vinte e um anos de censura, tortura e manipulação, o Regime Militar trouxe coisas boas: as canções de protesto. Muitos artistas ganharam nome e quase perderam a vida por conta da audácia de compor canções contrárias ao terror estatal imposta de 1964 a 1985.
Por outro lado, o ufanismo do qual a época foi carregada é enxergado por alguns como algo positivo. A brasilidade à flor da pele que os militares exigiam do povo fazia, como muitos acreditavam, com que os nossos cidadãos valorizassem muito mais a nossa terra e o que dela provém, diferentemente dos dias de hoje, em que muitos brasileiros detestam um produto ou arte somente pelo fato de ter origem tupiniquim. É um dos principais motivos que levam alguns senhores bradarem sem vergonha alguma: "a época dos militares, sim, é que era boa!"
E é essa dicotomia que me motivou a me aventurar pelo projeto brilhantemente idealizado pelo companheiro Emílio Forba, cujos dois primeiros e geniais passos você pode conferir aqui e aqui. Agora, lhes apresento o terceiro passo dessa jornada analítica: Batendo de Frente #3 - O Regime Militar segundo a Música.

PS1: em vez de álbuns completos, optei por disponibilzar músicas esparsas que, pontualmente, ilustram as linhas dedicadas a cada artista.
PS2: espero que tenham paciência, porque o negócio ficou grande. Afinal, abordei três artistas diferentes, todos com grande relevância pra música brasileira. Peço desculpas desde já.


Primeira Rodada - Chico Buarque de Hollanda: Protestos Escancarados e Disfarçados

Confesso que esse não foi o meu nome inicialmente eleito para figurar no polo contrário ao Regime Militar. Isso porque tive medo de cair em um lugar comum, de soar clichê. Em um emaranhado de artistas que muito bem se proclamaram em músicas contrárias à repressão, Chico Buarque é o nome mais recorrente dentre os citados. Por isso, minha ideia era trazer alguém que houvesse sido esquecido, ou cuja obra tivesse ficado no passado. Pensei em Geraldo Vandré, cuja vida antes, durante e depois de seu exílio é cercada de mistérios. Com suas aparições mais recentes, entretanto, em declarações controversas (que serão mais detalhadamente abordadas em momento oportuno), achei melhor descartá-lo e pesquisar, dentre os mais conhecidos, qual era o que mais vociferava contra as práticas abusivas. E aí, feliz ou infelizmente, não há como negar a importância e genialidade de Chico Buarque de Hollanda.
Filho do historiador Sergio Buarque de Hollanda, desde muito pequeno acompanhava discussões ideológicas de alto relevo em sua própria casa, de seu pai com amigos intelectuais. O resultado não podia ser outro: o garoto se tornou um homem crítico e politizado. Sua aptidão para a música começou a ser revelado para o Brasil nos grandes festivais, formato histórico e muito bem delimitado que trouxe à tona quase todos os talentos da MPB conteporâneos seus. As composições que pareciam inocentes, entretanto, como A Banda, passaram a, pouco a pouco, receber pitadas ácidas de crítica.
Sua primeira produção a ser vista com tortuosos olhares pelo Estado foi a peça teatral Roda Viva, estreia de Chico na dramaturgia. A história tinha como protagonista Benedito Silva, um cantor brasileiro que acreditava que não davam ao seu trabalho o valor que merecia, decidindo, então, mudar seu nome para Ben Silver. A peça trazia cenas de violência e visava a deixar claras as abusividades que ocorriam naquele tempo, o que, por si só, chamou a atenção do famigerado Departamento de Ordem Política e Social-DOPS. Para piorar a situação, a canção homônima, que trilhava cenas da peça, tencionava parecer que a "Roda Viva" do título, que tantas coisas ruins acabava por causar, seria o tempo e sua inexorável ação. No entanto, não havia outro significado senão o Regime Militar: a "Roda Viva" era a própria repressão da ditadura aos artistas censurados. Trechos como A gente quer ter voz ativa / No nosso destino mandar / Mas eis que chega a roda viva / E carrega o destino prá lá fizeram com que Chico fosse classificado como "pessoa potencialmente subversiva", uma ameaça ao Regime, portanto. A peça acabou proibida pela censura.

A atriz Marília Pêra, em cena da peça Roda Viva.


Para completar o cenário desfavorável, pouco tempo depois foi decretado o Ato Institucional n.º 5, o mais controvertido de todos os AI, que praticamente legalizava a tortura e suspendia diversas garantias constitucionais, além de outorgar poderes extraordinários à Presidência, bem como aumentar a área de abrangência da censura. Em resumo: "FODEU", diria Chico, se não fosse um camarada da mais alta estirpe. De qualquer modo, foi exatamente isso o que aconteceu, e, após ser chamado para "prestar esclarecimentos" acerca de diversas de suas letras, decidiu, temendo por sua integridade física, se exilar na Europa. Saiu do país com o pretexto de participar da Mostra Anual de Discos, que ocorria em Paris, e de lá rumou para Roma, onde se estabeleceu por cerca de quinze meses, entre os anos de 1969 e 1970.
Do exílio surgiram as turnês pela Itália ao lado de Toquinho e da cantora Josephine Baker, e surgiu também, em parceria com aquele, a composição de Samba de Orly, cuja letra denotava a crueldade que é impor a um brasileiro, que ama sua terra, que se afaste dela, ainda por cima sabendo que não está sendo bem cuidada pelos seus governantes. Com versos que lamentam, com certa inveja, a partida de um amigo das terras europeias rumo ao Brasil, os compositores pedem que mandem notícias deles ao povo brasileiro - Vai meu irmão / Pega esse avião / Você tem razão / De correr assim / Desse frio / Mas beija / O meu Rio de Janeiro / Antes que um aventureiro / Lance mão.
Esta faixa foi incluída no álbum Construção, considerado por muitos o melhor disco da história da música brasileira. É nele que Chico direciona seu veneno lírico às mazelas sociais advindas do descaso do Regime Militar, e o faz de maneira impiedosa. A faixa título, provavelmente a mais famosa de todo seu repertório, narra a história de um operário que, em nome do progresso nacional, trabalha dias a fio, sem um mínimo de segurança, até o dia de sua morte num acidente de trabalho (é interessante, e triste também, notar que esse, até hoje, é um problema de grande monta que segue negligenciado. Os números de mortes de operários em construção são alarmantes, tanto quanto o eram naquela época, como você pode verificar aqui).
Dois anos mais tarde, a maior gravadora do Brasil, Phonogram (hoje Philips), organizou um evento denominado Phono73, no qual apresentaria duetos de seus maiores nomes em músicas inéditas. Chico foi escalado para cantar ao lado de Gilberto Gil, com quem compôs a dolorosa Cálice. O famoso refrão - Pai, afasta de mim esse cálice / De vinho tinto de sangue - era uma clara alusão à tentação de Cristo, mas também continha um astuto jogo de palavras: era um protesto contra a censura, cada vez mais implacável no país, aludindo o cálice ao "cale-se". Obviamente, a canção teve de ser apresentada à censura antes da apresentação, e o resultado foi igualmente óbvio: recomendou-se que ela não fosse cantada (a sutileza do refrão não se repetia nas estrofes. A intenção de atacar a censura ficava clara em trechos a exemplo de Como beber dessa bebida amarga / Tragar a dor, engolir a labuta / Mesmo calada a boca, resta o peito / Silêncio na cidade não se escuta). Resultado: os artistas desejaram apresentar a canção apenas em sua melodia, cantando somente a palavra "cálice" quando aparecia na letra, de maneira simbólica. Nem isso foi possível, e todos os microfones foram cortados no momento em que revelaram essa intenção no palco. Com o arrefecimento gradual da censura, Cálice figurou como faixa de um disco de Chico apenas cinco anos mais tarde, com Milton Nascimento no lugar de Gil, que havia trocado de gravadora.
São muitas outras canções que representam a inteligência de Chico no combate ao Regime Militar, cada uma delas com uma interessante história por trás, mas não vou me alongar mais explicando cada uma delas. Na coletânea do Chico político que disponibilizo a seguir, incluirei Meu Caro Amigo, carta aberta de Chico ap seu amigo Augusto Boal, que estava exilado, informando dos percalços pelos quais o Brasil ainda passava; e Apesar de Você, a mais direta, sarcástica e simpática forma de ataque que Chico compôs em toda sua carreira. Tratam-se de notáveis canções cujo propósito era denunciar ao mundo o tolhimento da arte e a forma errante de se comandar uma nação.

Coletânea Chico Buarque
  1. Roda Viva
  2. Cálice
  3. Construção
  4. Deus Lhe Pague
  5. Samba de Orly
  6. Apesar de Você
  7. Meu Caro Amigo
  8. Funeral de um Lavrador
  9. O Que Será (À Flor da Terra)

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Segunda Rodada - Dom e Ravel: a Trilha Sonora (quase) Oficial do Regime



É sabido que uma das bases do Regime Militar foi o populismo. Pois bem, indispensável é a esse tipo de governo, no qual a interação do povo com seu caudilho é essencial, que este mesmo povo sinta uma identificação inesgotável com sua terra, um amor que seja tão grande e inexplicável a ponto de se tornar inaceitável qualquer crítica ao país, ainda que estas tenham fundamento evidente. E é daí que se extrai o ufanismo tão propagado e imposto no período da ditadura.
E essas críticas de fundamentos evidentes foram assunto da revolta da maioria da classe artista engajada daquela época, como explicitado acerca de Chico Buarque, por exemplo, logo acima. Entretanto, nem todos os cantores e compositores seguiram esse fluxo. Na contramão da classe, uma dupla oriunda do Ceará, mas radicada em São Paulo, construiu uma carreira em torno da exaltação ao Brasil e seus predicados, ignorando tudo o que se passava por trás das notícias oficiais.
Os irmãos Eduardo Gomes de Farias e Eustáquio Gomes de Farias estudavam música desde pequenos, e, incentivados por seu professor, decidiram tentar a sorte na carreira, sob a alcunha de Dom e Ravel.O primeiro disco foi lançado em 1969, e já trazia consigo um título bastante sugestivo: Terra Boa, dando a entender que o seu conteúdo não era exatamente revolucionário. Dentre o tracklist do registro, havia a faixa Você Também É Responsável, que tratava do problema do analfabetismo, de maneira aberta, mas leve e sem caráter crítico. Os versos: Eu venho de campos, subúrbios e vilas / Sonhando e cantando, chorando nas filas / Seguindo a corrente sem participar / Me falta a semente do ler e contar / Eu sou brasileiro anseio um lugar / Suplico que parem pra ouvir meu cantar / Você também é responsável / então me ensine a escrever / Eu tenho a minha mão domável / eu sinto a sede do saber.
No mesmo ano, se iniciava o governo Emílio Garrastazu Médici, que sucedeu Ernesto Geisel, o mais antidemocrático e sanguinário Presidente militar. Médici se preocupou com a repercussão política de certas ações de seu antecessor, tais como o fechamento do Congresso e a cassação de políticos opositores, e, portanto, não repetiu tais feitos. No campo da repressão aos comunistas, entretanto, armou uma verdadeira caçada contra os grupo surbanos e rurais, amparado no recente AI5, já citado neste artigo. Foi em seu governo que Carlos Marighella, maior guerrilheiro subversivo e grande opositor do regime, foi assassinado.
Para mascarar a verdadeira caçada, era necessária a implantação de políticas sociais que apontassem pro desenvolvimento do País, e a maior delas foi na área da educação. Nomeando o Ten.-Cel. Jarbas Passarinho, antigo Governador do Pará, para o Ministério da Educação, foi implantado o Movimento Brasileiro de Alfabetização, o famoso Mobral. Não era suficiente, entretanto, a simples implantação do movimento: era preciso que ele se difundisse entre a população. Para isso, Passarinho teve a ideia de divulgá-lo ao som de Você Também É Responsável, que virou o hino oficial do Mobral dois anos depois de seu lançamento.
O que se viu em seguida foram sucessivas composições da dupla em agrado ao Regime Militar. Uma delas, Obrigado ao Homem do Campo, ressaltava de modo extremamente ufanista o papel do trabalhador rural na base da sociedade. Os versos: Obrigado ao homem do campo / Pelo leite o café e o pão / Deus abençoe os braços que fazem / O suado cultivo do chão. Não que o homem do campo não merecesse reconhecimento de tal monta, mas o momento em que isso foi feito lhes outorgou a pecha de reacionários, sendo alo de preconceito dos demais artistas de fama no momento.
A sua composição de maior sucesso é Eu Te Amo Meu Brasil, icônica canção de exaltação a todos os pontos positivos que o Brasil possui, composta e cantada a plenos pulmões não só pela banda, mas por grande parte da população brasileira, em detrimento das mortes provocadas pelo Regime Militar, na tentativa de se manter o país em regime ditatorial.
Não se sabe se a dupla realmente concordava com o modo de governar dos militares, ou se, no anseio de atingir ao sonho máximo do estrelato, pegaram carona no jeito menos difícil: músicas para agradar aqueles que poderiam difundir o seu trabalho. Entretanto, a sua ligação com o regime militar os levou ao ostracismo, fato que pode ser constatado facilmente. Dom faleceu no ano 2000, e Ravel no ano passado, e nenhum dos dois acontecimentos recebeu mais do que algumas linhas na imprensa. Pode ser que tenham sido injustiçados, pois suas letras dinfundiam mensagens bonitas. Mas o contexto em que elas foram usadas, com o aval dos artistas (se de modo espontâneo ou não, não se sabe), lhes outorgou um rótulo indesejável, o qual foi carregado até o fim de suas vidas.
Coloco abaixo um vídeo bastante interessante, em que Silvio Santos, em 1988, recebe em seu programa um apelo de um ex-Ministro do Governo Figueiredo, integrante das Forças Armadas, para que o apresentador ajudasse a dupla Dom e Ravel, que havia caído no esquecimento. Ele ressalta o caráter racionalista dos dois. Note como o termo "comunista" é usado em tom pejorativo no diálogo.

Coletânea Dom e Ravel


  1. Eu Te Amo, Meu Brasil
  2. Você Também É Responsável
  3. Obrigado ao Homem do Campo
  4. Só o Amor Constrói
  5. Animais Irracionais

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Terceira Rodada - Geraldo Vandré: Batendo de Cima... do Muro.

Como dito lá no começo desta edição, quando tive a ideia de confrontar os artistas que cantaram a bem e em detrimento do regime, imediatamente me veio à cabeça o nome de Geraldo Vandré. Afinal, uma de suas composições é tida como o hino da mente enfurecida, o coro dos revoltados, a trilha sonora oficial de qualquer protesto brasileiro. Até hoje, Pra Não Dizer que Não Falei das Flores - largamente conhecida, também, como Caminhando - é entoada por quem esteja buscando alguma mudança relevante, seja lá porque, seja lá contra quem.
Antes dessa composição, e antes de várias outras coisas também, Geraldo Pedroso de Araújo Dias era apenas um pernambucano que migrou para o Rio de Janeiro para estudar. Na Faculdade de Direito da UFRJ, participou e promoveu ativamente os eventos culturais da União Nacional dos Estudantes, a famosa UNE, que papel tão importante teve nas críticas à ditadura. Seu tino para a música fez com que começasse a compor, cedendo algumas de suas canções a Carlos Lyra, que gravara uma ou duas delas em alguns de seus discos. Em 1964, lançou o seu primeiro álbum, sob o pseudônimo de Geraldo Vandré.
As atenções, entretanto, só seriam voltadas ao seu trabalho de forma contundente em 1966, no Festival de Música Popular Brasileira, evento de sucesso absoluto organizado pela TV Record. Sua composição, Disparada, foi interpretada por Jair Rodrigues e impressionou pela qualidade, sendo reproduzida pela boca do povo quase que de forma reflexa. Era praticamente inegável a existência de significados políticos em sua letra, mais denotados em versos como Então não pude seguir / Valente em lugar tenente / E dono de gado e gente / Porque gado a gente marca / Tange, ferra, engorda e mata / Mas com gente é diferente. A canção vencedora foi A Banda, de Chico Buarque, mas o apelo de Disparada foi tamanho que o próprio Chico pediu à organização do festival que dividisse o prêmio com Vandré e Rodrigues, tendo constado, portanto, duas músicas vencedoras naquele ano.
Antes disso, tinha inclusive lançado um disco intitulado Hora de Lutar, cuja faixa título, autoexplicativa, trazia versos como Quem sabe da vida espera / dia certo p'ra chegar / capoeira não tem pressa / mas na hora vai lutar / por você... Por você, no melhor estilo "o que é teu tá guardado". Outra composição marcante, cujo traço de resistência e luta é latente, é a belíssima Aroeira, trazendo belíssimas palavras de esperança de virada - Eu também sou marinheiro / Eu também sei governar / Madeira de dar em doido / Vai descer até quebrar / É a volta do cipó de aroeira / No lombo de quem mandou dar.
E como se não bastasse toda essa eloquência crítica, a cartada final veio em 1968, quando participou do III festival Internacional da Canção, que acabou por lhe outorgar a alcunha de "O Homem que fez Chico Buarque ser Vaiado". Explico: é nesse Festival que Vandré apresentou a supracitada Caminhando - "Vem, vamos embora que esperar não é saber..." -, canção de reflexo imediato nas locomotivas da luta estudantil contra o Regime Militar. Ou seja, o povo enxergou na composição um grande alento, e a sua vitória significaria a vitória do povo. Mas, por conta de uma intervenção dos militares, a vencedora foi Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim, para surpresa de seus próprios autores, que foram impiedosamente vaiados pela massa.
Depois do episódio, e das proporções monstruosas que Caminhando conseguiu tomar, a situação de Geraldo ficou insustentável no Brasil, motivo pelo qual se exilou em alguns países da América do Sul a partir daquele ano. E é aí que o jogo começa a virar. Esse exílio ficou envolto por muito mistério até pouquíssimo tempo. Houve quem dissesse que Geraldo estava morto, que havia sido torturado até que sua capacidade de discernimento houvesse sido atingida, dentre outros boatos que, mais tarde, foram desmentidos. Cinco anos mais tarde, Geraldo retorna a terras brasileiras, e um vídeo com um depoimento seu é exibido em rede nacional. Dentre as suas falas, negava veemente que alguma música sua tivesse sido crivada de militância político-partidária - e isso foi o estopim para mais uma onda de rumores, desta vez dando conta de que ele havia sido constrangido a gravar o vídeo, coisa que era muito comum à época, diga-se de passagem. Geraldo não gravou mais nada, não fez mais apresentações, e brigou na justiça para conseguir de volta seu cargo de servidor público federal que ocupava antes da confusão artística que causou, cargo no qual, inclusive, acabou se aposentando, pouco antes de sumir do mapa.
O retorno, a quebra do silêncio, se deu há dois anos, em uma entrevista exclusiva ao Jornal O Globo. Os boatos davam conta de que ele estava vivendo em uma pensão, na folclórica Rua Augusta. Se alimentava por restaurantes populares por ali existentes, levando uma vida simples, de pobreza inegável. Driblava toda e qualquer intenção jornalística de lhe obter declarações, até que resolveu ceder. O motivo, omo tantas outras informações de sua vida, ninguém sabe.
Ele começoua entrevista dizendo que "Geraldo Vandré ficou fora dos acontecimentos", dando a entender que era apenas um personagem. Logo de cara, inclusive, ele disse que isso aconteceu porque, desde quando temrinou a faculdade e foi fazer música, já sabia que "arte é cultura inútil". Algo que já aterrorizaria, de per si, todos aqueles que se embalaram pelas suas canções para arranjar forças onde não havia, pra lutar contra um inimigo que parecia muito maior.
Mas as surpreas não pararam por aí. Questionado pelo jornalista Geneton Moraes Neto acerca da opinião do artista sobre o fato de Caminhando ter se tornado o hino de protesto que se tornou, Geraldo foi enfático: nunca fez canção de protesto. O que fez foi música brasileira. E só. Pouco adiante, ele fala com todas as palavras que nunca foi antimilitarista, e que aquele vídeo já citada, em que ele negava ter ideologia político-partidária, não lhe foi imposto. Sugeriram que fizesse e assim o fez, sem falar nenhuma mentira em sua gravação.
Dentre outras coisas, Geraldo ainda fala que interrompeu sua carreira artística não por medo ou por repressões, mas porque achou que fosse o momento de se dedicar às suas atividades extramusicais - um belo eufemismo para "tinha mais o que fazer".
A maior das surpresas de seu retorno, entretanto, se deu pela composição da canção Fabiana, em homenagem à Força Aérea Brasileira-FAB, e cujo destino irônico lhe fez ser convidado para diversas solenidades das Forças Armadas, que outrora tanto repreenderam seu trabalho, para realizar performances de sua composição, e isso é o que mais se aproxima de uma apresentação de Geraldo Vandré desde 1968.
Muitos receberam a entrevista com um baita desgosto, uma tristeza enorme em descobrir que um dos ícones da luta, uma das bases fortes da resistência nada mais era do que um personagem. Outros ainda acham que a entrevista apenas corrobora com o boato de que ele havia ficado insano de tanto apanhar dos militares. Eu me restrinjo a classificá-lo como um murista e aventar a seguinte possibilidade: se Dom e Ravel foram acusados de usar a música favorável ao Regime para obter sucesso, seria muito absurdo pensar que Geraldo Vandré fez o caminho inverso? Digo: usou um mote o qual a juventude engajada idolatrava, que é a música de crítica à ditadura, para chegar onde chegou. Impossível? Nunca saberemos.

PS: não consegui achar um arquivo com Fabiana, até porque ela não foi gravada de forma oficial, mas você pode ver, num trecho da entrevista supracitada, Geraldo recitando parte de sua letra.

Coletânea Geraldo Vandré
  1. Disparada
  2. Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores
  3. Aroeira
  4. Hora de Lutar
  5. Fica Mal com Deus

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4 Responses so far.

  1. Forbidden says:

    Absolutamente fantástico. Uma aula. Sem mais.

  2. Soberbo, uma das colunas mais ricas que eu vi na minha vida!! Estou orgulhoso de fazer parte do time :)

  3. Texto incrível cara, muito bem embasado. Achei muito interessante essa parte do Geraldo Vandré, no mais, nota 10.

  4. Paulo says:

    Lendo o que você escreveu, acredito que o Geraldo Vandré fez, consciente ou não, aquilo que você sugere ao final do texto: num fim último buscou o sucesso ou, pra soar mais polido, antes de tudo a aceitação em meio ao contexto conturbado da época. Soaria feio e errado entre os esclarecidos ser diferente naquele momento, como soaram Dom e Ravel e o Simonal.
    Mas ele também era jovem e, como muitos de nós, possivelmente um idealista. Ou modista. Talvez com o tempo se ressintiu de outros alcançarem o sucesso ou mesmo de alguma atitude exagerada do grupo ao qual o vincularam, que de fato existiram (e existe ao meu ver, nos dois lados de uma estória, por exemplo, em maior - militares - e menor - revolucionários - grau). Exageros há em toda parte.
    Aliás, a realidade - naquela época e agora - não me parece tão preto e branco como alguns insistem em pintar. Ou seja, mesmo entre os militares existiam naquela época quem era moderado e não aprovava a tortura e perseguição. Não dá pra demonizar todos, assim como não dá pra tornar angelical ou destituído de defeitos os revolucionários da esquerda.

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