quarta-feira, 10 de julho de 2013
Avatar

Kanye West - Yeezus

1 comentários
Gênero: Experimental Hip Hop / Hardcore Hip Hop
País: Estados Unidos
Ano: 2013

Comentário: É possível traçar um paralelo entre as condutas de Kanye West e Anderson Silva. Não que o rapper tenha se metido no mundo das lutas, ou que Spider tenha a intenção de proclamar rimas daqui pra frente - até porque sua voz não seria muito propícia a tanto. É que ambos são muito bons no que fazem e, por isso mesmo, se acham acima de todos os outros colegas de trabalho, tendo o ego inflado a cada acerto em suas carreiras. Apesar de alternarem discursos de humildade com odes a si próprios, é nítido que ambos combinam mais com o estilo marrento do que com as exibições de modéstia que regularmente promovem.
Exatamente por conta dessa auto-confiança exacerbada é que, apesar de serem excepcionais em suas atividas, Silva e West estão muito longe de ser unanimidade quanto aos fãs de MMA e Rap, respectivamente. E é por isso que a cada vez que é anunciado um novo trabalho de Kanye ou uma nova defesa de cinturão de Anderson, inevitavelmente me vem à cabeça o seguinte pensamento: é agora que esse cara mete os pés pelas mãos. Não que eu torça contra qualquer um deles: pelo contrário, sou fã de ambos. Não há um disco sequer de Kanye que não me agrade, da mesma forma que não acredito que houve ou haverá lutador mais fascinante do que Anderson Silva. Apenas sinto um medo de que, no próximo passo, o feitiço da megalomania deixe de funcionar.
O que aconteceu com o Anderson, todo mundo viu: o mundo assistiu sua esquiva não ser rápida o suficiente, e seu queixo finalmente demonstrar o seu lado suspeito.  A queda do campeão, em meio a volumosas e questionáveis provocações, fizeram com que meu temor se concretizasse. O lutador se tornou tão cheio de si mesmo que acabou estourando - o que não me fez deixar de admirá-lo. Errou na dose? Sim, errou, mas isso não apaga toda sua história de utilização da mesma técnica zombeteira com perfeição em tantas defesas de título.
Desde as primeira notícias de sua concepção, tudo indicava que Kanye seguiria o mesmo caminho que seu equivalente no UFC ao lançar Yeezus.  Desde o título escolhido - trocadilho de seu apelido, Yeezie, com Jesus Cristo - até a decisão de divulgar o primeiro single por meio de projeções aleatórias em edifícios, sem a autorização de seus donos - que não deram lá muito certo, diga-se de passagem - tudo isso configurava sinais de que finalmente West dera um passa maior que a perna, e o seu ego havia o engolido. Quando descobri que havia uma faixa intitulada I Am a God, então, não tive dúvidas: é esse o trabalho de Kanye West que irá me decepcionar. Errei.
A megalomania está, sim, dosada de forma cavalar, mas é exatamente esse o charme do disco. Ao passo que consegue tratar de assuntos de pouca relevância e muita marra como sua vida de faz-acontecer na já citada I Am a God (com versos marcantes que já viraram até camiseta, como "Hurry Up with My Damn Croissants") ou ainda a sua facilidade em conseguir parceiras sexuais em I'm In It (que se inicia com frases como "Your Tits, Let'em Out, Free At Last"); também faz, com extrema maestria, menção a assuntos intrincados como o racismo, que subsiste depois de tanto tempo de abolida a escravatura, em New Slaves, ou a penca de interesseiros que a fama atrai, em Blood on the Leaves - a melhor do disco, em minha opinião.
Nem tudo é trunfo no disco. Não me agradaram muito as tentativas de incursão de Hardcore Hip Hop, como na faixa de abertura. Soou como um tributo ao Death Grips meio mal feito. Mas isso não é capaz de inviabilizar todo o resto, principalmente dos, digamos, 'apóstolos' que Yeezus escolheu. As duas participações de Justin Vernon (o cara por trás do Bon Iver), nas já citadas I Am a God e I'm In It são simplesmente sensacionais, sendo que nesta última ele soa como um legítimo cantor de Blue-Eyed Soul. As produções de duas das melhores duplas de música eletrônica, uma já consagrada - o Daft Punk - e outra extremamente psicodélica e promissora - o TNGHT - em algumas das faixas também mantém Kanye muito bem acompanhado. A mãozinha na composição e produção de gente como Lupe Fiasco, Marley Marl, NoID, Kid Cudi, 88-Keys e Agent Sasco completam o time de sucesso, em contribuições de grande valia.
Enfim, voltando ao UFC, não posso afirmar que Anderson Silva me decepcionou. Num primeiro momento, me senti ofendido por deixar a balada de lado pra vê-lo adotar aquela estratégia. Mas depois compreendi que ele apenas exagerou numa estratégia que já vinha praticando há anos, e que vinha dando certo. Já Kanye, este ousou muito mais. Buscou algo gigantesco até mesmo para os seus padrões, e, sabe como é, quanto maior o voo, maior o tombo. Isso se você cair: Kanye West não caiu. Pode ser que sua megalomania tenha me hipnotizado e, quando passar o efeito, eu ache o disco uma grande porcaria, como algumas opiniões que li por aí. No entanto, enquanto isso não ocorre, eu posso afirmar sem medo de errar que ele prossegue voando - e para o alto.




Tracklist:
  1. "On Sight" - 2:36
  2. "Black Skinhead" - 3:08
  3. "I Am a God" - 3:51
  4. "New Slaves" - 4:16
  5. "Hold My Liquor" - 5:26
  6. "I'm in It" - 3:54
  7. "Blood on the Leaves" - 6:00
  8. "Guilt Trip" - 4:03
  9. "Send It Up" - 2:58
  10. "Bound 2" - 3:49


Spotify

One Response so far.

  1. domrafa says:

    Melhor review, melhor texto, tirou palavras da minha boca (como se diz...), concordei em tudo. Ou quase tudo, pq eu realmente não consigo achar uma música mais ou menos aí, todas elas merecem 5 estrelas.

Leave a Reply

Link Off? Comente aqui mesmo ou na caixinha de bate papo ali do lado que a gente reposta rapidinho.

 
Ignes Elevanium © 2011 DheTemplate.com & Main Blogger. Supported by Makeityourring Diamond Engagement Rings

Poucos direitos reservados a nós e muitos para as bandas.