terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
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Porco na Cena # 33 - A Espiral de Bukowsky + Herod na despedida do Walden

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O calor de mais de trinta graus e sensação térmica de quarenta minou qualquer possibilidade de este post ter um tom melancólico - afinal, chuva e frio são componentes essenciais pra um bom jazz e uma boa tristeza. Mas posso substituir esses elementos pelos causos e caos do sábado à noite: da festa do aniversário de São Paulo na praça da República, recheada de pagode e axé, aos protestos naquela mesma região, contra os gastos da Copa (que reuniu a ação de manifestantes, o arrastão de alguns bandidos e a quantidade enorme de policiais na região, que normalmente não tem policiamento algum), o mais melancólico foi saber que esta Cosmopoplitan Party seria a última do Walden, em seus 21 meses de existência e mais de duas mil bandas que pisaram em seu porão.

Em meio à suadeira, foi uma bela despedida.



A ESPIRAL DE BUKOWSKI


A noite no Walden estava pra começar às 21h e sem muita demora, os patrões da coisa toda descem pra se apresentar. Cesar Zanin e Mariana Cetra, casados na vida real e na vida musical,  se engajaram neste projeto experimental A Espiral de Bukowski - apresentando-se em vários lugares desde sua formação. Por volta das 21h20 o show começa em tom de ensaio: como de costume, os instrumentos são largados no chão como que a esmo (numa vasta coleção deles: desde sintetizadores e pedais até uma escaleta, um ''mini-acordeon'' e teclados em geral). O show começa num sopro dos pedais; o noise toma conta totalmente numa amálgama de batidas e texturas de melodias que são adicionadas pouco a pouco fazendo aquele belo sanduíche de brisa. E isso se repete por 4 músicas, terminando numa batida dub regada a escaleta.

HEROD


Como a casa estava cheia, nos apressamos em conseguir um bom lugar em meio ao bafo quente formado pelos sovacos em excesso no porão; e aí está um ponto negativíssimo do show, já que o ventilador do canto não adiantava muito pra quem estivesse um pouco longe do mesmo. O ar condicionado perto da mesa de som, provavelmente quebrado, poderia quebrar um galhão. Pois bem, todos de preto e de calças, o show começa em meio ao nevoeiro formado tanto pelo vapor das maquininhas de fumaça, quanto pelo suor, e principalmente pela intro do show: dez minutos de um noise rock que chega a incomodar, mas no bom sentido - já que as dissonâncias criadas formavam um tecido etéreo e irrequieto.

O show, de fato, começa, com seu álbum Umbra, e aí pudemos perceber que as guitarras não estavam lá num volume muito bom. A bateria havia coberto todos os instrumentos, dando mais destaque ao ritmo das músicas, por vezes desigual. E bem sabemos que o estilo da banda funciona muito mais quando as camadas de cordas sobrepujam as batidas. Isso que afetou também o solo da Limbo, que é a canção que eu mais piro no Umbra - mas isso não me impediu de curtir o fim brisante dela.

Pra minha surpresa, que não esperava vocais neste show - já que Limbo, originalmente na voz do Jair Naves, foi toda instrumental - o guitarrista Lucas Lippaus anuncia Blinder, e assume o microfone desta vez. Que também foi prejudicado pelo baixo som da voz. Mas entre os pontos negativos, a banda executou seu álbum na íntegra exatamente como é em estúdio (alguns podem ver isso negativamente, mas neste caso, eu queria mais era ter no show a mesma pira que eu tive ouvindo o Herod em casa, jogado no sofá, bêbado ou não. O objetivo fora alcançado, e tirando todos os problemas técnicos, o show da banda fez valer a noite. No final das contas, não foi o show do Herod ou da Espiral que validaram a última noite do Walden, mas o contrário: a ocasião tornou o show melhor. Interpretem como quiserem, mas pra mim isso foi ótimo.

Setlist:

1- Penumbra
2- Collapse
3- Limbo
4- Blinder
5- Silencio
6- Antumbra
7- Penumbra
8- Umbra

Sobre o fim do Walden


Eu conheci o Walden há um ano e meio (menos ou mais), no show dos joinvilenses do Bela Infanta em uma de suas passagens pelo centro velho de São Paulo. Era de noite, eu tinha perdido meus óculos no mosh de outro show uma semana antes, então o míope aqui andou à beça pra encontrar aquele lugarzinho escondido na praça da República, num breu intenso entre um hotel e uma vielinha; e que grata surpresa aquele dia! Descobri bandas que hoje em dia adoro, graças aos shows que frequentei sem nem mesmo saber qualéra das bandas - dez reais por show? Fiz a festa! E além de shows no próprio Abrigo, Cesar também já trouxe bandas como Ringo Deathstarr e Beach Fossils para outras casas de shows afiliadas, sempre fazendo jus ao ''do it yourself''. Totalmente independente. E nesses quase dois anos de vida, estabeleceu-se como uma das casas de shows mais importantes do circuito indie e underground de sampa e também como ponto de encontro pra qualquer apreciador de artes - já que o local também contava com exposições de artes, teatro e mídias audiovisuais.

E claro, os chopes por três reais.

Mais do que a memória (ainda que recente), o Walden vai deixar saudades. Onde mais vamos encontrar um lugar acessível, barato, onde você encontra sem querer os amigos e ainda tem uma arte muito louca no porão onde os shows aconteceram? Ou um lugar que tem seu charme em suas limitações, tanto por ser independente como por ser pequeno (e caloroso)? Vamos esperar agora pra ver quais serão os próximos projetos do Cesar e da Mariana, e que outras coisas irão aparecer na cena independente dessa cidade que abraça quem quer fazer acontecer.


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