sábado, 17 de maio de 2014
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Titãs – Nheengatu

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Gênero: Punk Rock / Rock
País: Brasil
Ano: 2014

Comentário: Faz tempo que estava esperando esse novo álbum dos Titãs. Esse novo álbum seria uma volta ao “Cabeça Dinossauro” (pelo menos foi o que a banda prometeu) e ao bom punk rock que o Titãs sabe fazer também, talvez não com a mesma fórmula, mas sim com a mesma essência desse aclamado álbum. Isso me instigou a procurar informações sobre o décimo quarto álbum da banda e o que esperar dele – a capa me instigou; obre de um holandês sobre a Torre de Babel, para chegar a Deus e originando vários idiomas espalhados pelo mundo e o título, “Nheengatu” foi esclarecedor. Língua criada pelos jesuítas para unificar a linguagem indígena assim que chegaram ao Brasil, para mim, estudante de antropologia (daqui a um semestre serei um, de fato, assim espero) o conceito do álbum refletiu totalmente o estágio em que nosso país está vivendo, nas palavras do próprio Titãs – “Uma tentativa de fazer uma foto instantânea do Brasil atual, as duas ideias se contrapõem bem: uma palavra (e uma linguagem) de entendimento para tentar explicar um mundo de desentendimento.”

E com essa atmosfera de espera dei o play na primeira faixa do álbum “Fardado” e não me surpreendi que de fato a promessa estava sendo cumprida! “Fardado” é suja, é pesada, é uma típica música de protesto para abrir o álbum, só por ela já podemos concluir que: “Cabeça Dinossauro” vai voltar!

“Nheengatu”, segue em sua vibe suja, decadente, corrompida e politizada. Em termos de temática, “República dos Bananas” é bem inovadora em sua letra e sua maneira de abordagem, além de ser um pouco mais rápida que as faixas anteriores, remete quase diretamente ao som criado pela banda na época de “Cabeça Dinossauro”, por sinal, a faixa seguinte também carrega o mesmo apelo: “Fala, Renata” - que consta também com uma sonoridade muito própria.

Divagando um pouco, acho que, por estarmos em um ano infestado por tantos protestos e manifestações, esse álbum não poderia sair em outra época! Temos um palco ideal montado para esse Nheengatu, para essa confusão de falas diferentes que querem unificar como una, essa desclassificação das minorias diante dos nossos olhos – dessa minoria que consegue, aos poucos, apoio de uma maioria que percebe que ser minoria não necessariamente o faz marginal e esquecido – as minorias, as outras línguas, os vários discursos, não podem ser tomados como únicos, precisamos da relativização que nos cabe, da decência de ver que todos somos, pasmem, humanos e temos nossos direitos!

Ok, passado o momento divagação, voltemos ao álbum: “Canalha” do Walter Franco, é aqui regravada em um ambiente mais iluminado, talvez uma meia-luz, porque a faixa, como a original, apresenta a soturnidade necessária que a faixa clama – e o trabalho da guitarra na faixa é incrível, carrega com o vocal o nível de dor e descontentamento, aqui na medida, que é pedido. Ótima faixa, compõe muito bem com as canções originais do álbum, complementa, não é um mero cover ao acaso: uma excelente ponte entre “Cadáver Sobre Cadáver” e “Pedofilia”

“Pedofilia”, aliás, é uma das melhores faixas do álbum, para mim. A letra é forte, explícita, contendo os argumentos de um pedófilo em um vocal semi-sussurrado, com o peso da soturnidade da faixa anterior e uma bateria apressada, um vocal rasgado no refrão, um experimentalismo no meio e, putaqueopariu, uma faixa foda – o peso do punk rock que um dia o Titãs representou repousam magistralmente nessa faixa.

“Chegada ao Brasil (Terra À Vista)” segue, em ritmo, o refrão da faixa anterior e acho quem e torno repetitivo se falar da letra, mais uma vez suja e problematizando os nossos próprios esteriótipos nessa brincadeira do descobrimento do Brasil, mais uma vez, uma letra muita boa em uma faixa, sonoramente, tão boa quanto. Nesse ponto do álbum chego até a concordar com a “crítica especializada”: um dos álbuns mais bem tocados e gravados do Titãs, de fato, um de seus melhores álbuns.

Antes de escrever essa resenha fui ver o que já escreveram sobre o álbum e concordo que a principal crítica (positiva, até) a ele é o fato de ninguém esperar que dos Titãs surgisse algo tão criativo e tão remetente a fase essencialmente punk da banda. Sou um fã ferrenho do “Cabeça Dinossauro”, tanto que tenho o LP do mesmo, não existe, em cena nacional, uma banda que sabe falar tão bem da realidade política e social que vivemos – ok, os caras estão ricos e estão falando de pobreza e desgraça, mas o discurso ainda é válido, aliás, mais do que válido. Só para constar na resenha: o vocal final de “Flores Pra Ela” é fantástico, fodamente gritado e machistas de plantão que acham que a vida de uma mulher deve ser regrada pelo seu bem-querer, mandos e desmandos: ouçam essa faixa, por favor.

Como não podia deixar de ser, em um álbum tão controverso, sobram também críticas a instituições religiosas em “Senhor”, de certo ponto, até velado. Em minha humilde opinião: não poderia faltar. Nos tempos modernos a salvação está em qualquer esquina, na mão de qualquer um, fazendo o povo que quer ser salvo entregar o que tem e o que não tem em nome de um senhor que eles nem sabem dizer direito quem é. E são dessas questões tão atuais e controversas que o álbum quer falar, colocar em debate, incitar, verdadeiramente, a chama de um debate.

O álbum encerra com “Baião de Dois” e “Quem São Os Animais?” da mesma maneira que começou: tecendo críticas ao atual sistema de vida que nos são impostos, os preconceitos que de antemão colocam em nós e nos fazem engolir como “pela ordem da família e dos bons costumes”, me desculpem, mas se for desse jeito que vamos respeitar os bons costumes eu prefiro os costumes ruins. Se for pra falar assim prefiro erradicar essa nheengatu unificador de discursos diferentes. Vamos queimar a Torre de Babel – não é preciso chegar ao céu, é preciso saber respeitar as diferenças aqui em terra.




Tracklist:
01. Fardado
02. Mensageiro da Desgraça
03. República dos Bananas
04. Fala, Renata
05. Cadáver Sobre Cadáver
06. Canalha
07. Pedofilia
08. Chegada ao Brasil (Terra à Vista)
09. Eu Me Sinto Bem
10. Flores pra Ela
11. Não Pode
12. Senhor
13. Baião de Dois
14. Quem São os Animais?

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