sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
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Os melhores discos de 2014 por Daniel

2 comentários

2014 não foi o ano em que mais ouvi música. Não quer dizer que não tenha tido meus discos favoritos e entre eles não há alguns que já se tornaram xodós para toda vida. Mas sei que deixei de ouvir lançamentos seminais que talvez fossem entrar nessa lista. Acontece. Swans, Run The Jewels e ruido/mm, eu juro que vocês terão seu momento. Apesar disso, posso dizer algumas coisas sobre o ano. O hip-hop se sedimentou de vez como o gênero que mais evolui, se transforma e questiona no mainstream. E também o de maior consciência política e social. O rock cada vez mais deixa evidente sua saturação e já pede algo que vá o colocar de fora dos trilhos mais uma vez. A música brasileira alternativa vive um momento maravilhoso, e recomendaria a todos prestarem atenção ao seu redor, pois estamos vivenciando o nascimento de várias obras que vão entrar na história. Deixo uma menção honrosa ao disco do Racionais, que ainda não digeri o suficiente. Talvez um mês a mais e ele estaria muito bem colocado aqui. E essa é minha lista:




15 - Timber Timbre - Hot Dreams
Folk Contemporâneo

A sonoridade esparsa e o tom melancólico combinam bem com a voz um pouco monótona de Taylor Kirk. Os canadenses do Timber Timbre meticulosamente domaram cada elemento do disco para que nada fugisse do controle. O que serve de seu ponto mais forte e também de principal desvantagem. Não há grandes pontos altos e a sonoridade remete demais a uma espécie de "americana" hipster. De qualquer maneira, o disco ainda entrega um som de quem claramente sabe o que está fazendo e isso não é nem de longe pouca coisa.


14 - Open Mike Eagle - Dark Comedy
Hip-hop

Dark Comedy é um disco de tomada de risco. Com um hip-hop lento e arrastado, Open Mike Eagle conseguiu pegar toda essa onda de música de internet feita para jovenzinhos alternativos e fazer uma produção que a fizesse caber no rap. Suas letras são instigantes, mas, infelizmente, seu flow deixa a desejar. Se em quase todos os outros quesitos seu disco mereceria estar mais acima na lista, logo no mais importante Mike não se sustenta. Torço que no futuro ele consiga encaixar melhor suas rimas, pois talento há de sobra.


13 - Ratking - So It Goes
Hip-hop

Do melhor hip-hop saído de Nova Iorque nos últimos anos, o primeiro disco do Ratking - grupo formado pelos MCs Wiki e Hak e o produtor Sporting LIife - é pesado até o caraço. E felizmente encontramos um caso em que a produção e as rimas se encontram à par. Com batidas de graves secos e samples jogados pro agudo, os dois mcs esbanjam um flow agressivo. Infelizmente, o grupo ainda não conseguiu uma sonoridade realmente própria para se soltar de 'influenciado' pelo hip-hop de NY para se tornar influente na cena. Aguardemos.


12 - Big K.R.I.T - Cadillactica
Hip-hop

Cadillactica é feito de pontos altíssimos e outros bem mais ou menos. É inegável que K.R.I.T tem um talento enorme - talvez o maior da sua geração, pois é incrivelmente habilidoso como rapper e produtor- mas ainda assim continua marcado por uma inconsistência que o impede de lançar uma mixtape ou disco para entrar na história e o fazer estourar. Aqui, seu segundo disco completo, ele solta dois dos melhores raps da década, a faixa que dá título ao nome e Mt. Olympus. São, para mim, os dois melhores raps do ano, inclusive. Mas o resto do disco não se sustenta e acaba sendo um pacote que deixa a desejar.


11 - Fire! Orchestra - Second Exit
Jazz, Experimenal

O primeiro Exit, que me apresentou ao ensemble sueco, foi um dos meus discos favoritos de 2013. 28 instrumentistas de jazz fazendo improvisação da mais alta qualidade. Mas os vocais acabaram me deixando com o pé atrás para a banda. Nessa 'continuação', um dos dois releases do grupo no ano, o problema resiste na medida em que é apaziguado. O som apoteótico se manteve, assim os crescendos impressionantes. Só que, infelizmente, os vocais não foram embora, o que não quer dizer que eles também não tenham melhorado se comparados à primeira tentativa. De qualquer maneira, o som da Fire! Orchestra é um dos mais interessantes que tive o prazer de rever nesse ano. 


10 - Elbow - The Take off and Landing of Everything
Chamber Pop

Honey Sun e a música título já bastam para colocar o disco do Elbow como um dos melhores do ano. As músicas fizeram minha cabeça e se tornaram uma trilha sonora não oficial para minhas jogatinas do novo Sim City - que no fim das contas não é grande coisa. As duas músicas - e o disco - transpassam uma sensação de calmaria e leveza que não encontrei em nenhum outro lugar no ano, e fazem isso por meio de progressões muito bem estruturadas. É um disco que talvez não marque de primeira e nunca vai constar na lista de favoritos de ninguém. Mas é um disco que ocupa o seu papel de maneira quase perfeita. Uma pena não oferecer aquele "algo a mais" para se tornar, de fato, um disco essencial.


9 - Freddie Gibbs & Madlib - Piñata
Hip-hop

Um dos disco mais esperados do ano, e também um dos que cumpriu as expectativas, Piñata é puro peso por parte de Freddie Gibbs - que faz um gangsta rap tradicional até demais. Mas o destaque mesmo fica por parte do genial Madlib, que não decepciona com sua produção afiadíssima e ao mesmo tempo se inserindo no seu tempo sem perder as referências clássicas que lhe são tão marcantes. Talvez não se torne um grande clássico de rap, mas é um largo passo na direção certa. As expectativas para colaborações futuras entre os dois cresceu ainda mais do que eu imaginava. Não foi tão aclamado quanto outros de hip-hop nesse fim de ano, mas sua recepção calorosa no começo do ano mostra que os dois tem muita capacidade para criar um enorme impacto na cena.


8 - James Vincent McMorrow - Post Tropical
Art pop

James Vincent McMorrow é talvez a minha voz masculina favorita em atividade. We don't eat, música do seu primeiro disco, de 2010, é uma das minhas favoritas de todos os tempos. Mas, ainda assim, seu trabalho era marcado por uma inconsistência que me impedia de o colocar acima de criador de bons singles. Em Post Tropical, acho que McMorrow finalmente achou seu pé, o que não significa que ele tenha alcançado todo seu potencial. Com uma produção mais esparsa e sessões com instrumentos de sopro, as músicas do disco são individuais o suficiente para se destacarem mas coesas na medida certa para soarem como trabalho finalizado. Tenho por mim que ele tem toda condição do mundo para, um dia, lançar um clássico. Até lá fiquemos com o seu já sólido trabalho.


7 - Millie & Andrea - Drop The Vowels
Jungle

Ainda que música eletrônica talvez seja das principais vertentes da música contemporânea que eu menos me dê, volta e meia algo me pega. Nesse ano, Millie e Andrea fizeram minha cabeça. Com um som atmosférico e pesado, forçado bastante nas batidas - que o rateyourmusic categoriza como jungle - os dois fazem músicas sem pressa. Ainda que não ache o disco dark, como vi algumas resenhas apontando, também não poderia dizer que a atmosfera do disco não é tensa. Em certos momentos as músicas me remetem a trilha sonora de Akira, mas com uma roupagem mais moderna. Foi uma boa mudança de ares no meu ano e possivelmente uma porta de entrada para um novo mundo de música eletrônica.


6 - The Roots - ...And then you shoot your cousin
Hip-hop, funk, soul

Esse talvez seja o disco mais estranho do The Roots. Conhecidos por fazer um tipo de coisa - ainda que melhor do que qualquer outra pessoa no planeta - o grupo Nova Iorquino ainda manteve sua forte raíz no r&b, soul, funk e hip-hop, mas dando uma guinada para o futuro. Usando alguns interlúdios de músicas que não são suas, os Roots pegam sua sonoridade tradicional e voltam à primeira marcha, fazendo músicas menos densas e com mais espaço em seus sons para os vocais - com exceções, no geral, dos refrões. Convidados como Raheem DeVaughn aquecem o espaço para o mc mais consistente da história, o gigante Black Thought. A produção de outra lenda do hip-hop, Questlove, também mantém tudo num alto nível de qualidade. Mas o pacote talvez seja coeso demais. Questlove - o cabeça do grupo - trabalhou no disco de D'Angelo, que também serve de passo à frente, mas sem perder a diversidade interna que faz de um álbum verdadeiramente grande. Faltou isso para ATYSYC.


5 - Ben Frost - A U R O R A
Industrial

A U R O R A me oprime por dois motivos. Primeiro pela constante lembrança de que não pude ver o show de Ben Frost nesse ano no Novas Frequências. Depois, por sua própria atmosfera. Numa produção tensa  - mas em certa medida desprovida de exageros - Frost consegue fazer crescendos impressionantes, como em Secant, que inclusive traz algo que chamaria de próximo da animação. Venter, por sua vez, é talvez a melhor música do disco e segue a mesma linha. O som de Ben Frost, hoje, é inconfundível e sua presença restará por um bom tempo na linha de frente da música eletrônica. A U R O R A, acho, teve o maior impacto na cena de música eletrônica alternativa no ano, conseguindo inclusive alcançar um público leigo, como o que vos escreve.

4 - Silvia Pérez Cruz & Raül Miró - granada
Folk contemporâneo

Granada é um dos disco mais delicados e objetivos que já escutei, e isso se dá a sensibilidade de interpretação dos catalães Raül Miró e Silvia Pérez. São músicas já existentes, de todo canto do mundo - há Acabou Chorare e duas músicas em alemão - toda transcriadas. O termo de Haroldo de Campos, cunhado para a tradução da poesia, também pode ser colocado aqui, nesse conjunto de versões covers. Não são releituras, não são reproduções, e sim re-criações das músicas, transpondo a alma de Pérez e Miró para o que já foi feito. E essas são almas densas e experimentais, nos brindando com um som para ser digerido aos poucos, ainda que parece simples. Discaço ignorado.


3 - Ryan Adams - 1984
Punk


Ryan Adams lançou dois discos em 2014. Um, é o self-titled e serve de carro-chefe. É um rock atmosférico bem particular, e tem ótimas músicas como Gimme something good e My Wrecking Ball. Mas o principal destaque, para mim, é 1984. Um ep curto, não passa dos 15 minutos. Mas mostra a versatilidade pouco apreciada de Adams. O mesmo cara que fez as baladas em Love is Hell e o country exótico de Heartbreaker acaba de soltar um material de hardcore próprio. As guitarras não são sujas e o som não é pesado como na maior parte do gênero. Mas puxando para a linha melódica de Husker Dü, faz os 15 minutos de música que mais ouvi no ano, com uma agressividade e urgência que poucos conseguem igualar. 


2 - D'Angelo and the Vanguard - Black Messiah
Soul


Black Messiah foi a melhor surpresa do ano. Seu lançamento inesperado só reforça seu impacto e potência. É um clássico instantâneo. A começar pela desconstrução do Soul que D'Angelo faz. É uma junção de experimentalismo e 'tradição' sonora sem par. Músicas como 1000 Deaths são sujas e densas ao mesmo tempo em que retém a suavidade do gênero, o baixo marcado e o andamento clássico. Outras, como Another Life e Sugah Daddy seguem a linha mais conservadora, e ainda assim conseguem soar novas se comparadas ao que o próprio D'Angelo fez em Voodo.

Fora o timing quase perfeito, em que os Estados Unidos vivem uma onda fortíssima de tensões raciais, principalmente entre a população negra civil e a polícia. Apesar da clara carga sexual no disco e nas suas letras, D'Angelo não se esquiva das questões políticas e sociais, o próprio lançamento adiantado do disco sendo por conta dos protestos. Black Messiah (re)confirma o que já deveria ser senso comum: Quem mais inova e se redescobre na música popular atual é a black music, do soul ao hip-hop. 


1 -  Juçara Marçal - Encarnado
Vanguarda Paulista, math rock


Encarnado é o melhor disco do ano. E Juçara também fez o meu show favorito de 2014, na Audio Rebel. O disco é único, a culminação de um caminho que vem sido explorado pelo pessoal do Metá Metá e cia há bastante tempo. Encarnado é intenso do começo ao fim. As interpretações de Juçara - a voz mais bonita em atividade no Brasil - só aumentam sua potência com as guitarras de Kiko Dinucci e Rodrigo Campos que dividem de igual para igual o espetáculo com a cantora.

Apesar de compostas por pessoas diferentes, as músicas em Encarnado são coesas. Provavelmente pelos poucos instrumentos - o que não significa um minimalismo, já que o disco é grandioso e ocupa todos os espaços possíveis - cada uma delas é dotada de uma sensibilidade comum, gauche e torta. Fica difícil separar as canções, ainda que todas sirvam perfeitamente bem por si próprias. Entre os principais destaques vejo Ciranda do Aborto, A Velho da Capa Preta e Damião. Sinceramente, não sei se sou capaz de descrever o disco na maneira em que ele merece. É uma experiência ímpar e talvez a única em que todos deveriam sair de 2014 tendo tido. 

2 Responses so far.

  1. Anônimo says:

    o 'run the jewels 2' é realmente um dos melhores do ano. e há poucos discos nacionais aí, por quê?

  2. Tinha deixado passar o do KRIT desse ano por algum motivo que desconheço, já que ele é um dos meus MCs preferidos na cena atual. Revisitei seu top agora e ouvi o disco, realmente são sensacionais as duas que você citou. Eu acrescentaria Soul Food no mesmo patamar. E aí tem mais algumas "só" boas e outra bem médias, mas um belo disco no geral. Acho que esse discaço do estouro vai chegar em breve.

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