quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
Avatar

Os Melhores Discos de 2014 por PH

0 comentários

Certa vez divaguei, nesse mesmo espaço, sobre o aspecto particular da arte em geral, especialmente no tocante à música, e como ela se torna ímpar a partir do momento que adentra a percepção do sujeito, sendo moldado pelas experiências, gostos e lembranças desse cidadão, tornando-a peça única. Isso tudo foi só um jeito prolixo de dizer aquilo que todo mundo que tem avós desbocados já ouvem desde criança: "gosto é que nem cu, e cada um tem o seu". E o meu (GOSTO, que fique bem claro) será exposto a vocês nesse momento, mais especificamente conquanto aos lançamentos que perpassaram esse ano.
Confesso que só mantive o título do post como "Os Melhores Discos" para manter o padrão das postagens dos meus colegas, mas a lista infra-postada tem um caráter bem pessoal e está bem longe de ter a pretensão de afirmar que esses são os quinze MELHORES discos do ano - até porque nesse ano ouvi muito menos lançamentos do que fiz ano passado. São apenas os quinze que mais mexeram com as minhas percepções e que me marcaram por um motivo ou outro. São os mais apurados tecnicamente falando? Não. São os mais aclamados pela crítica especializada? Negativo. São o suprassumo da música em 2014? Não sei, tem que ver isso aí. São só os quinze discos que me mais me aprouveram e que me acompanharam nas minhas corridas. Segue o rol.



15) Ratking - So It Goes...

O trio nova iorquino prometia desde 2012, quando lançou seu primeiro EP, Wiki93. No ano seguinte, apenas um single e muita especulação. Em 2014, finalmente, o debut foi lançado, intitulado So It Goes..., trazendo histórias de Nova York, mas sem copiar a fórmula do clássico Illmatic - erro este em que incorreram diversos outros artistas do mesmo gênero e localidade geográfica anteriormente. Bem por isso é que acertaram: criaram uma identidade próprio e balancearam muito bem versos em flow e em hooks, que algumas vezes são até mesmo pegajosos, como Puerto Rican Judo. Outra faixa digna de nota é So Sick Stories, que conta com a voz marcante de King Krule no refrão. Um disco de estreia que outorga crédito para novos trabalhos de qualidade.

Spotify

14) Criolo - Convoque Seu Buda
LEIA ANTES DE ME ODIAR: AH MAS O CARA SE VENDEU-tô nem aí; AH MAS ELE NÃO FALA PRA PERIFERIA-não me importo; AAAH MAS ELE ABUSA DAS REFERÊNCIAS POP-não sabia que era crime; AAAH MAS ELE -aah foda-se! Não importa o que falem do cara, não importas que todos tenham razão em dizer que ele é pedante e pretensioso, há certo tipo de artista que mexe com a gente de um jeito diferente a cada trabalho. Não acompanhei a onda de ódio que atingiu o Criolo desde que ele ganhou destaque na mídia, ao passo que também não segui desenfreadamente a condução do artista ao pedestal. Apenas sigo e aprecio, e acredito na sua música. Devo confessar que o melhor produtor brasileiro - Daniel Ganjaman - ajuda bastante no processo.

Download Oficial / Spotify

13) FKA Twigs - LP1
Depois de dois EPs, batizados criativamente de EP1 e EP2, a cantora Tahliah Barnett, que adotou a alcunha artística de FKA Twigs, abusou mais uma vez da falta de criatividade ao lançar seu aguardado debut intitulado LP1. O que lhe falta na sagacidade da escolha de títulos sobra em inovação musical. Seu estilo, o Neo-Soul, vem se distanciando cada vez mais do Soul clássico, é verdade, mas isso não me parece necessariamente algo ruim, como inferiu muita gente da crítica especializada. Gênero que não se reinventa está fadado a soar como cover de si mesmo pra sempre. Com uma voz marcante e produções abstratamente irresistíveis, conseguiu cravar o seu lugar nessa distinta lista. A nota lamentável fica mesmo por conta da imprensa que, ignorando sua individualidade, tem se referido a ela como "namorada de Robert Pattinson" antes mesmo de citar o seu nome.

Spotify

12) Racionais MCs - Cores & Valores 
Artistas do porte dos Racionais MC's, certamente um dos maiores da história da nossa música, não precisam de álbum novo pra continuar capitalizando em cima de sua obra. Quando o fazem, no entanto, geralmente soam os famosos covers de si mesmos. Não é o caso aqui. O quarteto se reúne em sua formação original pra lançar um álbum praticamente conceitual, com faixas contínuas, e com produção bem diferente do que já havia apresentado - mais puxado pro trap, o que gerou muitas críticas, é verdade, mas evidencia a coragem do grupo em sair de uma zona de conforta construída de forma muito sólida. Destaque para Eu Compro, com participação de Ogi, Coração Barrabaz, com sensacional distorção vocal de Mano Brown, e principalmente A Praça, retratando a confusão causada durante a apresentação do grupo na Virada Cultural Paulista em 2007, incluindo sample das notícias da globo sobre o ocorrido.

Álbum Completo no Youtube (RacionaisTV)


11) Eno/Hyde - High Life
Brian Eno é provavelmente um dos grandes workaholics da música. Com dezenas de álbuns lançados em empreitadas solo ou em parcerias com músicos de diferentes estilos (a exemplo de Robert Fripp e Jah Wobble), o artista de sessenta e seis não parece querer parar - nem de trabalhar e nem de inovar em suas criações. Dessa vez ele se alia a Karl Hyde, integrante da conceituada banda de música eletrônica Underworld, lançando logo dois álbuns pela parceria Someday World, de maio, e High Life, de junho, e o melhor deles. Esse segundo disco, um pouco mais agitado que o primeiro, traz um art rock bastante rebuscado, com influências diversas, com lampejos de afrobeat e ambient pop. Mais uma vez, Eno se mostra um artista completo e, arrisco dizer, um dos maiores da história da música.

Spotify

10) Shabazz Palaces - Lese Majesty
Três anos depois de Black Up, disco de estreia do duo Shabazz Palaces, projeto Tendai Maraire em associação com ninguém menos que Ishmael Butler, o Butterfly do lendário grupo novaiorquinho Digable Planets, Lese Majesty aplaca a espera dos fãs ávidos por mais do Hip Hop Experimental e conceitual que a dupla fornece como poucos atualmente. As faixas deste disco são como uma viagem em busca do retorno do chamado Conscious Hip Hop. Vale ressaltar que Maraire, que é natural do Zimbábue, traz muita percussão de sua terra para se juntar às batidas eletrônicas, o que dá um toque único às rimas do experiente MC.


Spotify

09) Flying Lotus - You're Dead!
Dois anos depois do excelente Until the Quiet Comes, Flying Lotus nos apresenta You're Dead!, um disco que não só o aproxima mais como também o faz fincar os dois pés nos arenosos terrenos do nü-jazz, despontando inclusive como um dos melhores artistas do gênero na atualidade. O tema que permeia quase todo o trabalho, como se pode inferir de seu título, é a morte, motivo pelo qual Pharrell Willians, ultimamente na vibe de bem como a vida (porque ele está feliz), deu dois passos para trás e desistiu de fazer parte do projeto pouco tempo antes do dia marcado para a gravação de suas participações. Quem não deu pra trás foi o queridinho do mundo do Hip Hop, Kendrick Lamar, que faz uma participação perfeita em Never Catch Me, que ainda vem com um clipe perturbador.

Spotify

08) Sun Kil Moon - Benji
Confesso que, por pura birra, quase tirei esse disco da lista. Mark Kozelek, o homem por trás do Sun Kil Moon, se revelou um verdadeiro babaca durante o ano, clamando por atenção e entrando em uma rusga unilateral com a banda The War on Drugs. Pra coroar a presepada, ainda escolheu termos potencialmente machistas e homofóbicos pra revelar seu descontentamento. Retornando ao disco no fim do ano, no entanto, consegui separar a pessoa do artista quando ouvi Carissa de novo, e todo o sentimento colocado na faixa, assim como a quase desesperadora I Can't Live Without My Mother's Love. Grande disco de uma pessoa pequena.


Spotify

07) Amerigo Gazaway - Yasiin Gaye
Relutei um pouco em adicionar esse álbum duplo ao meu top, isso porque é praticamente covardia a junção do trabalho de dois monstros da música, com obras antológicas, concorrer com outros meros mortais de álbuns comuns no mesmo ano. A qualidade do resultado, no entanto, me persuadiu a inseri-lo aqui. Amerigo Gazaway é um DJ e produtor especializado em Mashups. Seus trabalhos anteriores haviam mesclado as obras de De La Soul e Fela Kuti (Fela Soul) e A Tribe Called Quest e The Pharcyde (Bizarre Tribe), trabalhos nos quais já tinha sido extremamente bem sucedido. Juntando a obra de Yasiin Bey, o rapper anteriormente conhecido como Mos Def, e Marvin Gaye, o maior nome do Soul de todos os tempos, Gazaway consegue fazer parecer que ambos compuseram e produziram juntos as faixas de seu disco. É impressionante o tato que o produtor tem em escavar, encontrar e alinhar faixas das obras de ambos. Por todo o exposto, apesar de não ser exatamente um trabalho 100% autoral, foi impossível retirar esse disco da minha lista - até porque, em número de scrobbles, foi o meu álbum mais ouvido do ano.

Bandcamp: The Departure (Side One) / The Return (Side Two)

06) Wu-Tang Clan - A Better Tomorrow
Já dizia o grande pensador do século passado, Sérgio Reis, que "panela velha é que faz comida boa", e o Wu-Tang Clan tá aí pra corroborar com a tese outra vez mais. Com o anúncio do início dos trabalhos desde 2012, e depois de uma ferrenha disputa, feita pública por alguns meios de comunicação, entre Raekwon e RZA pela braçadeira de capitão deste novo álbum, embate este vencido pelo segundo, que convenceu o primeiro a deixar a ele a produção do álbum todo e a palavra final acerca das composições. Isso acabou fazendo com que Raekwon tivesse uma participação mais tímida no registro, o que não tira o brilho no álbum. Também pudera: um álbum em comemoração aos vinte anos de lançamento de uma das maiores pérolas da história do Hip Hop, Enter the Wu-Tang (36 Chambers), não poderia ser nada menos que explosivo.

Spotify

05) James Vincent McMorrow - Post Tropical
O cantor irlandês James Vincent McMorrow nos apresenta, em seu segundo disco, uma mistura de Soul, Indie e Folk de uma maneira apaixonante. Post Tropical, é um disco que cria uma atmosfera de calmaria perfeita, com arranjos suaves de piano, acompanhados de elementos pontuais de música eletrônica que adornam o constante falsete do talentoso músico. Sua voz é diferente, seu canto emana um tom que não estamos acostumados a ouvir com muita frequência. A faixa de abertura, Cavalier, bem como Gold, All Points e Look Out são exemplos de grande aplicação de emoção nos vocais, que sintetizam a entrega do artista que sentimos durante todo o disco. Como eu disse na resenha que fiz do disco no começo do ano, trata-se de um trabalho bastante alvissareiro para aqueles que gostavam do Bon Iver, mas não gostaram do Volcano Choir, seu novo projeto; ou pra quem curtia o City and Colour, mas não se animou lá grandes coisas com o rumo que a carreira dele tomou enquanto se afastava do folk. McMorrow consegue preencher esse vazio, inovar e dar uma guinada em sua carreira, tudo com apenas dez canções.

Spotify

04) Run the Jewels - RTJ2
Taí um disco que me acompanhou bastante nos meus 5km diários de corrida de rua. Isso porque o embalo da dupla, formada por dois nomes de peso do Conscious e Hardcore Hp Hop, El-P e Killer Mike, é contagiante. No segundo trabalho do projeto - sendo que o primeiro foi lançado em 2013 e o terceiro já está marcado para 2015 - a face nervosa da crítica política está ainda mais feroz e evidente. Em RTJ2, o duo convida gente bem famosa pra participar - como Travis Barker e Zack De La Rocha - em mais uma penca de potência e revolta em forma de rimas e batidas. Melhor disco de Hip Hop do ano, disparado - e olha que, como você já viu, em 2014 tivemos a volta do maior grupo de todos os tempos neste gênero.


Spotify

03) Iceage - Plowing into the Field of Love
Se tem uma coisa que eu aprecio em música é artista que ousa sair de sua zona de conforto, e essa é certamente uma característica do terceiro disco da banda dinamarquesa Iceage, intitulado Plowing Into the Field of Love, nome também da ótima faixa que fecha o registro. O melhor do álbum, no entanto, está logo em seu início: On My Finger, The Lord's Favorite, How Many (essa a melhor do disco, em minha singela opinião) e Glassy Eye, Dormant and Veiled são o melhor quarteto de início de um disco que ouço em anos. A mudança de paradigma da carreira vem pelo caráter mais técnico e mais melódico das faixas do disco em questão,s e comparadas aos primeiros dois discos, mais crus, da banda. A já citada The Lord's Favorite, por exemplo, não fosse a voz rasgada e estilo escrachado do vocalista, poderia figurar em um top hits qualquer de rádios populares facilmente. O maior trunfo da banda, pra mim, inclusive e no entanto, continua residindo exatamente nesse peculiar vocalista, Elias Bender Rønnenfelt. É impressionante como em uma só faixa ele é capaz de te fazer mudar de opinião. Uma hora seu estilo desleixado me parece sensacional, em outro momento me enjoa e já começo a opinar sobre a total falta de tato para cantoria do rapaz, e poucos segundos depois retorno a reconhecer o caráter sensacional da originalidade de seu estilo de soltar a voz - esse paradigma, que a música insiste em nos outrogar, já é, por si só, motivo para prestar atenção na banda.

Spotify

02) Juçara Marçal - Encarnado

Existem muitas, muitas mesmo, coisas boas a serem ditas sobre esse disco. Palavras como inovação, fôlego à música brasileira, e até mesmo "salvação" foram outorgadas a este trabalho, mas eu quero deixar tudo isso, toda essa genialidade de lado, e me ater, nessas poucas linhas que dedicarei ao segundo melhor disco do ano pra mim, a uma das faixas em especifico, a Ciranda do Aborto, que desde o título já causa mal estar. Desde a letra, sensacional, por ser sutil e pesada ao mesmo tempo, até os arranjos e interpretações que contribuem pra aura de desgosto da música, tudo nela resume o que de mais bonito a arte em geral faz, que é fazer pensar, fazer se remoer, ter sensações mistas, boas e ruins. Consegue retratar com perfeição o que é a profundidade de um assunto como esse: um elefante na sala de estar, algo que ninguém quer discutir a fundo, um problema que a maioria das pessoas só quer ignorar pra ver se vai embora sozinho. Mas não vai. Retrata a dor de quem aborta e de quem é abortado. Causa um incômodo enorme, e é exatamente por isso que é tao linda. Assim como todo o disco.

Download Oficial

01) D'Angelo and the Vanguard - Black Messiah
Você já fechou sua lista de quinze melhores discos do ano. Você já está prestes a publicá-la. Daí você descobre que no dia 16 de dezembro um de seus artistas preferidos, que não lançava nenhum trabalho há nada menos que CATORZE ANOS resolve, sem cerimônia, sem aviso prévio, sem sequer rumores sobre isso na mídia, lançar um novo disco, completinho, e ainda por cima abordando temas políticos e sociais. O resultado é meio óbvio: rearranjamento de posições na lista (nessa o Sadistik, com seu Ultraviolet, dançou, infelizmente) e o disco em questão rumando direto ao topo. Desde Voodoo, considerado sua masterpiece, D'Angelo não divulgava nenhum trabalho, inclusive pouco acumulava aparições na mídia, e de repente nos brinda com Black Messiah, disco de doze faixas em parceria com a banda The Vanguard. Como dito, as questões sociais e política são abordadas com maestria, inclusive em um momento de efervescência total e comoção nacional acerca desse tipo de questão nos Estados Unidos - em suma, o racismo, em especial o perpetrado pelas forças policiais. Vou deixar o próprio artista falar sobre esse traço do seu disco:


Apesar de toda seriedade que o assunto demanda, o disco não deixa a essência do Soul de lado, que é o romantismo e a sensualidade. Assim, canções como Really Love deixam a chama acesa e permitem que o melhor de dois mundos se encontrem em um retorno à ativa mais do que espetacular. Esse provavelmente é uma das poucas listas em que esse disco figurará, já que é praxe de blogs e sites de entretenimento liberarem seus tops na primeira quinzena de dezembro. Fica aí a dica (pra quem não aprendeu com o ano passado, deixando a Beyoncé de fora por conta desse apressamento), pra em 2015 a lista sair mais tarde.

Spotify



Leave a Reply

Link Off? Comente aqui mesmo ou na caixinha de bate papo ali do lado que a gente reposta rapidinho.

 
Ignes Elevanium © 2011 DheTemplate.com & Main Blogger. Supported by Makeityourring Diamond Engagement Rings

Poucos direitos reservados a nós e muitos para as bandas.