quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
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Porco na cena #50 - Lupe de lupe em Belo Horizonte

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Era uma noite de quinta-feira e a cidade de Belo Horizonte foi basicamente varrida por uma chuva torrencial e caótica. Era basicamente impraticável deslocar-se por longas distâncias, principalmente de carro, devido a parca visibilidade e o perigo de acidentes. Alheio a tudo isso, abandonei a escola em que trabalho em direção à Autêntica, nova casa de espetáculos destinada à artistas independentes, que abriu as portas pela primeira vez ao grande público. E para iniciar os trabalhos os conterrâneos da Lupe de lupe, a melhor banda de todos os tempos da última semana, deram o ar da graça. 

De fato, a minha descoberta quanto existência da banda era recente. Desta feita uma série de pensamentos dúbios dominavam as minhas percepções pré - show, pois tudo relacionado a Lupe, inicialmente, era estranho. Como não captei de imediato o conceito promovido pela banda, mas a sujeira, a melancolia das letras  e peso nada regrado resultavam em algo totalmente fora dos padrões. Sabe aquela banda de garagem do seu vizinho que ainda está começando a tocar seus primeiros acordes? Então ao ouvir o grupo a sensação predominante era de que uma banda amadora, que emulava distorções de My blood Valentine e Sonic Youth, que achava que seria legal promover o revival anos 90, em tempos onde o legal é ser moderninho "indie sambinha", persistia existir. Pesquisando um pouco mais, descobri que todo esse caos sonoro era um exercício premeditado, um verdadeiro foda-se a tudo e a todos. Movido por uma curiosidade absurda fui de encontro a apresentação e e confesso que não estava pronto para o que estava por vir.             

Quando cheguei ao recinto a apresentação já havia iniciado e no decorrer da mesma toda a analise negativa caiu por terra. O amadorismo ainda era latente, mas no bom sentido da palavra. De maneira ousada a banda transpirava paixão e energia, características estas ligadas somente a aqueles que apostam na urgência e na vontade desmedida para transmitir a sua visão de mundo. O público se comporta de maneira dispare: ora atônito, boquiaberto, ora em catarse brandando cada um dos versos (desde os mais complexos aos mais ganchudos) ou se entregava as rodas de mosh. 

Inicialmente, a sonoridade do grupo pode ser rotulada como puro 90's, mas tudo é entregue de maneira tão crua e visceral que a sensação é como se o rock estivesse ainda em seus primórdios. A longa apresentação de mais de duas horas (quem faz isso hoje?) perpassou por toda a discografia da banda, dando ênfase ao mais recente trabalho Quarup, elogiado disco duplo (?) que condensa todas as percepções e caraterísticas do grupo.  

Em tempos onde a frieza mecânica musical predomina, a existência de uma banda com a Lupe de Lupe comprova que estamos no caminho certo. Recentemente em texto Marco Barbosa (leia aqui) o autor atribuiu a banda o status de "banda salvadora do rock", análise esta que classifico como das mais errôneas. O rock não precisa ser salvo, pois o fato do mesmo não fazer parte do mainstream e de aparentemente não desencadear novas cenas estes fatores não descredenciam o gênero. Prova disso é que atualmente o Brasil vive um de seus melhores momentos, graças a uma gama de artistas independentes que buscam de maneira heroica a sobrevivência e o estabelecimento de novas identidades.

Como todo e qualquer ritmo musical o que mais precisamos no rock são de bandas que saibam ser fiéis ao próprio estilo, não se rendendo à estereótipos ou modismos e que nos retirem do lugar comum. De maneira desconfortável ou não a Lupe de Lupe segue a risca desta pseudo cartilha, provando que não precisamos de salvações inúmeras e sim de mais autenticidade.

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