quarta-feira, 29 de abril de 2015
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Engenheiros do Hawaii: a fase clássica e o seu legado

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Com carreira iniciada há 30 anos os gaúchos dos Engenheiros do Hawaii são um dos maiores patrimônios do rock brasileiro safra anos 80.

Desde o seu primeiro disco, Longe demais das capitais (1986), o power trio formado por Humberto Gessinger, Augusto Licks e Carlos Maltz  construiu um sólido repertório que até hoje segue na predileção do extenso séquito de fãs de ontem e de hoje.

De maneira geral, o grande trunfo da banda reside na persona de Gessinger que constrói letras simples, com grande apelo político ou de caráter pessoal, que ao serem casadas a melodias pegajosas, calcadas nas escolas do pop, rock e da MPB, geram identificação e aproximação por parte do público.
 
Em sua formação clássica o grupo produziu seis discos de estúdio. Além do já citado Longe demais das capitais, na sequência vieram A revolta dos Dândis (1987), Ouça o que eu digo: não ouça ninguém (1988), O papa é pop (1990), Várias Variáveis (1991) e Gessinger, Licks & Maltz (1992), discos que conquistaram poucos adeptos por parte da crítica, mas uma grande parcela de ouvintes.

Após seis anos de produção e turnês ininterruptas a banda terminou de forma abrupta devido a conflitos internos. Resolvida à pendência, Gessinger seguiria três anos mais tarde com uma nova formação, mas que não repetiria o brilho e o sucesso de outrora.

Anos mais tarde, o legado deixado pelos Engenheiros do Hawaii, principalmente desta fase, ganharia um tributo à altura. Idealizado pelo produtor Anderson Fonseca, o álbum intitulado Espelho Retrovisor traz bandas da nova geração revisitando grandes clássicos do trio.

Desta feita, analisar a trajetória do saudoso grupo gaúcho fase clássica se faz necessária.




Longe demais das capitais

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Lançado 1985, Longe demais das capitais traz uma banda iniciante que ainda respira e emula influências externas. 

A produção crua de Reinaldo B. Brito capta de maneira enérgica a desempenho da banda que se rende a sonoridade pós-punk e ska trabalho, num reflexo direto das influências dos ingleses The Police e dos Paralamas do Sucesso.

Algumas características que se tornariam essências para a carreira do grupo, tal como tom político das letras e referências literárias, já despontam por todo álbum. A canção “Crônicas”, por exemplo, crítica de maneira contundente a modernidade humana em  ode ao escritor italiano Umberto Eco¹ (“Você, que tem ideias tão modernas / É o mesmo homem que vivia nas cavernas”). “Eu ligo pra você” fala sobre o vício televiso. Já o hit “Toda forma de poder” aborda o totalitarismo político impresso por figuras como Fidel Castro e Pinochet. 

Outros sucessos como “Segurança” (faixa figurou na trilha sonora da novela Corpo Santo da extinta Manchete) e “Sopa de letrinhas” (que já havia sido lançada na coletânea Rock Grande do Sul) colaboram para que a banda alcançasse sucesso fora do eixo sul.

A revolta dos Dândis

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Ainda sob a batuta de Brito, A Revolta dos Dândis (título em ode a Albert Camus) registra os primeiros passos da maturidade sonora. 

A entrada de Augusto Licks, que assume o posto de guitarrista, Humberto assume o baixo (em substituição a Marcelo Pitz), instrumento que o definiria por toda a carreira.   

Sem se render aos seus contemporâneos, a banda apostou neste álbum em outros campos musicais. A faixa título (dividida em duas partes) calcada em melodias folk e a balada “Refrão de um bolero” são exemplos desta nova seara.

Nas letras Gessinger segue traçando perfis tempestuosos sobre a sociedade da época. “Além dos outdoors“ aborda sobre o vazio humano, a atemporal “A revolta dos dândis II” versa sobre a política partidária dos opostos e pode ser associada livremente aos nossos tempos: 

"Esquerda & direita, direitos & deveres, os três patetas, os três poderes 
Ascensão & queda, são dois lados da mesma moeda 
Tudo é igual quando se pensa em como tudo deveria ser 
Há tão pouca diferença e tanta coisa a escolher” 
           
A arte da capa, composta por grafismos e itens iconográficos, dá início à outra marca pessoal da banda. 

A já citada faixa título e “Refrão de um bolero”, mais Terra de Gigantes” e “Infinita Highway” foram os grandes sucessos deste álbum que é até hoje um dos mais admirados pelo público.

Ouça o que eu digo: não ouça ninguém

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Produzido por Maluly, Ouça o que eu digo: não ouça ninguém retoma o tom político do disco de estreia.

A certo modo, as letras refletem as agruras da era Sarney na presidência brasileira. As punks e aceleradas “Desde quando?”, “Sob o tapete”, “Quem diria?”, “Tribos & tribunais” e “Cidade em chamas” são exemplos desta revolta externada.

São hits deste álbum a imperativa faixa título, a balada “Somos quem podemos ser” (gênero que seria explorado em todos os álbuns seguintes) e “Verdade a ver navios”.

O papa é pop 

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Foi com O papa é pop que a banda chegou ao seu ápice de popularidade. Vendendo cerca de 400 mil cópias, o disco é definido como o mais pop da banda.

Produzido pelo próprio trio (marca que seria repetida nos dois próximos trabalhos) o álbum contém hits como “Exército de um homem só, I” (canção ode ao trabalho de mesmo nome de Moacyr Scliar), “Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones” (versão de "C'era un ragazzo che come me amava i Beatles e i Rolling Stones" de Gianni Morandi, eterniza também pelos brasileiros dos Incríveis), “Pra ser sincero” e a faixa título. Destacam-se ainda cadenciada e longa “A violência travestida faz se Trottoir” mais “Nunca mais poder”, crítica voraz a busca a eternidade em tempos efêmeros. 

A ótima receptividade do público acabou por repercutir na imprensa graças a revistas como a Bizz e a Veja que elegeram a melhor banda daquele ano.

Várias Variáveis

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Várias Variáveis é marcado pela presença de Licks num maior número de composições.

Singles como “Herdeiro da pampa pobre” (regravação do cantor Gaúcho da fronteira), “Piano Bar” e “Ando só” (faixa que faz menção a Pergunte ao pó, romance de John Fante) conquistaram bastante popularidade. 

A aposta numa sonoridade mais próxima ao rock progressivo dá o tom no álbum se destacando em “Quartos de hotel” e em “Sampa no Walkman” (em alusão a “Sampa” de Caetano Veloso). A pegajosa “Muros e grades” e a roqueira “Nunca é sempre” fecha o álbum.

Gessinger, Licks & Maltz

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O derradeiro disco com a formação clássica, Gessinger, Lick & Maltz é visto como um dos melhores e mais diversificados trabalhados do trio. Prova disso é o fato de que na eleição criada pela extinta revista Bizz no fim da década de 90, o álbum figurou na seção “pérolas que merecem reavaliação”.

Para além do universo rock, a banda se rendeu a outras sonoridades como uma levada sambística em “Ninguém=ninguém”, o tango cometido em “Pampa no walkman”, os uso de sintetizadores em “Até quando você vai ficar?”. Batidas eletrônicas conduzem “Canibal vegetariano devora planta carnívora” e as baladas conduzidas essencialmente ao piano “Pose (anos 90)”, “No inverso fica tarde + cedo” são outros exemplos da versatilidade imposta. 

Já na ala rocker “Chuva de conteiners” e a pesada sequência final composto “A conquista do espelho/Problemas... sempre existiam/A conquista do espaço” encerra este ambicioso trabalho.

Infelizmente devido a uma batalha judicial, relacionada a direitos autorais entre os integrantes da banda, o grupo encerrou as atividades.

Gessinger, que saiu vitorioso na justiça, continuou anos mais tarde com  uma nova formação e lançou uma série de discos, mas sem repetir o mesmo brilho de tempos anteriores.

Para celebrar os 30 anos de banda, o site Scream & Yell disponibilizou de maneira gratuita o tributo Espelho Retrovisor, álbum que traz a nova geração da música brasileira homenageando o trio gaúcho.

Espelho Retrovisor


Organizado pelo produtor Anderson Fonseca, Espelho retrovisor (título inspirado na canção “Quartos de Hotel” do álbum Várias Variáveis) é o tributo que faz jus ao legado criado pelos Engenheiros do Hawaii. 

Lançado em 2014, a homenagem é composta por novas bandas brasileiras que optaram por duas vertentes: recriar os arranjos originais ou se aproximar dos mesmos.

Na primeira categoria temos Phillip Long e sua intimista versão para “Terra de gigantes”; o duo Strobo desconstrói “Infinita Highway” adicionando ares caribenhos; “O papa é pop” ganha ares punk-pop via Forfun; a releitura eletrônica para “Quartos de hotel” cometida por BLANCah.

Já na segunda ala temos os conterrâneos da Vera Louca que perpetuam uma versão acústica para “Parabólica”; a suingada adaptação de “Toda forma de poder” cometida pelo Anacrônica; a pungente cover de “Refrão de um bolero” do Monocine e a surpreende “Pra ser sincero” feita Tsubassa Imamura em modo bilíngue. 

A fase clássica do grupo Engenheiros do Hawaii é talvez um dos maiores legados do rock nacional. Seus inúmeros hits singles produzidos durante a época até hoje seguem executados pelas rádios brasileiras.

Alheio a baixa receptividade da crítica, o grupo Engenheiros do Hawaii soube, disco a disco, conquistar o seu espaço no cenário nacional, no coração de milhares de fãs e o respeito de artistas dos mais variados segmentos. Prova disso é o tributo Espelho retrovisor, disco que celebra os 30 anos de existência de um dos mais aclamados trios da música brasileira. 

A discografia da banda está disponível no Spotify. Já o tributo Espelho Retrovisor está disponível para audição e download no site Scream & Yell

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